[CRÍTICA] filme, Jogo Perigoso

Suspense da Netflix explora as verdades ocultas de um casal que decide passar um fim de semana amoroso que acaba não dando muito certo. A obra é mais uma adaptação de uma obra de Stephen King
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2017 foi um ano feliz para os fãs de Stephen King. Desde 1976 quando “Carrie, a Estranha”, seu primeiro romance, fora adaptado para as telonas, os trabalhos do autor foram incansavelmente transportados para esta outra mídia. Claro, nem sempre o resultado foi o dos melhores. Não é o caso de Jogo Perigoso.

Jogo Perigoso (Gerald’s Game), é mais uma das apostas da Netflix em usar como material base uma das obras do autor. Seguindo muito do material original e acertando nas mudanças, Jogo Perigoso é um retrato bem elaborado das prisões que nossa própria mente cria e de como pode ser doloroso, literalmente, romper essas barreiras.

O filme se inicia com o casal Jessie, (Carla Gugino) e Gerald (Bruce Greenwood) indo passar um final de semana em uma casa isolada na ânsia de reascender a chama do casamento. Gerald tem a ideia de incluir uns jogos sexuais no fim de semana romântico e algema Jessie. Porém, Gerald acaba morrendo deixando Jessie algemada. Para escapar desta situação, Jessie terá de usar todo seu espectro imaginativo e reviver memórias dolorosas para escapar.

Dirigido por Mike Flanagan (Hush – A Morte Ouve), o filme se passa quase que completamente em um quarto. A narrativa é cadenciada. O inicio do filme é lento mas não enfadonho. As cenas onde o casal está interagindo pautada por diálogos reveladores a respeito do caráter de Gerald, mostram o tom que a narrativa irá seguir. A fotografia com um tom em sépia mas que não abusa de outros filtros, ajuda a criar o ambiente claustrofóbico e opressivo que o diretor quis passar. Depois de alguns minutos, é possível sentir que o medo de Jessie não é infundado.

Por falar em Jessie, a interpretação de Carla Gugino é que torna tudo verossímil. As expressões da atriz mostram todo sofrimento da personagem que precisará se refugiar dentro da sua mente para escapar dali. É onde as coisas começam a ficar melhor ainda.

Precisando reviver/vencer fantasmas do passado, Jessie “cria” personagens que podem lhe ajudar ou impedir que consiga fugir das algemas. Destaque para uma determinada lembrança de Jessie de quando ela era criança e assiste ao eclipse. O dialogo entre ela e seu pai chega a dar nó no estomago e pode se dizer que aquele evento moldou todas as escolhas de Jessie.

O toque sobrenatural do filme fica por conta de uma figura misteriosa que aparece na penumbra mas que, na verdade, só saberemos sua real identidade ao final do filme. Há uma trecho no final do filme onde alguém diz uma frase a esta figura possivelmente sobrenatural que sintetiza a verdadeira catarse de vencer uma prisão mental.


Jogo Perigoso é um filme de suspense que consegue entreter e surpreender. Mais umas das apostas originais da Netflix que sabem usar o matéria de Stephen King de forma certeira. Nós fãs agradecemos.


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Jogo Perigos (Gerald’s Game, EUA, 2017)
Gênero: Suspense
Roteiro: Jeff Howard, Mike Flanagan (adaptação do livro homônimo de Stephen King)
Direção: Mike Flnagn
Duração: 103 min.

[Top 10] As Melhores Leituras de 2017




Olá pessoas!!!

Como vem acontecendo ano após ano, venho diminuindo a quantidade de livros que venho lendo. E isso não é nenhum problema. Ler unicamente em prol da quantidade não interessante. Independente da quantidade de livros lidos – um ou cem – o importante é a viagem que a leitura nos proporciona e o quanto nos fascinamos, pensamos, aprendemos e mudamos após cada leitura...

Neste ano li 26 livros. Destes, escolho e apresento-vos os dez que achei os melhores – lembrem-se, é só minha opinião. É difícil escolher os melhores. Alguns que ficaram de fora, se fizesse a lista daqui um ou dois meses, poderiam entrar na lista. Porém, os cinco primeiros sem sombra de dúvidas estariam...


Claro que meus gostos se sobressaem mas alguns autores inéditos pra mim aparecem por aqui e é bom descobrir coisas novas. Antes de apresentar os melhores deste ano, que vale ressaltar, não são livros lançados em 2017 mas sim que eu li em 2017, deixo abaixo os links dos melhores dos anos anteriores...


Bem chega de lenga-lenga e vamos lá.


10 Andróides sonham com ovelhas elétricas?, de Philip K.Dick
Livro que que serviu de base para o clássico de Ridley Scott de 1982, Blade Runner. É uma ficção cientifica onde a ideia do que nos faz humanos é explorada. Nele, acompanhamos o agente Deckard caçando androides (replicantes) que procuram um meio de prolongar sua existência. Um ótimo suspense, com roteiro que prende atenção e com um debate filosófico bem interessante. Merece o décimo lugar nesta lista – RESENHA COMPLETA  AQUI


09 Livros de Sangue: Vol I, de Clive Barker
Um dos maiores nomes dentro da literatura de terror não poderia ficar de fora. Neste livro de contos, somos apresentados há um mundo onde o sombrio, o gore, o fantástico e, principalmente o medo estão presentes. Adentrar no Universo de Barker é ter certeza de sustos e surpresas. Desde que li o fantástico "O Desfiladeiro do Medo" alcei o autor ao Olimpo do Terror. Os contos aqui são todos surpreendentes. Destaco "O Yattering de Jack", um conto pautado no humor negro que é de uma originalidade incrível – RESENHA COMPLETA AQUI


08 Do Inferno de Alan Moore e Eddie Campbell
Até hoje a identidade de Jack O Estripador continua sendo um mistério. Talvez por isso este serial killer seja uma figura que volta e meia permeia o universo pop. Nesta Graphic Novel, o bruxo Alan Moore não só propõe quem seria o autor destes crimes como também detalha os motivos para toda aquela brutalidade. Envolto em  conspiração e uma dose de metafisica acompanhamos a história dos crimes com um pano de fundo de uma Inglaterra Vitoriana em decadência. – RESENHA COMPLETA AQUI



07 História da sua Vida e Outros Contos de Ted Chiang
Mais um livro de contos por aqui. Ted Chiang só ficou conhecido do grande público graças ao filme A Chegada, adaptação cinematográfica de um de seus contos. O que seria uma injustiça com este autor que surfa por várias áreas do conhecimento: religião, ciência, filosofia... Seus contos são ricos em detalhes e sempre nos fazem pensar sobre algo de forma mais profunda. Não à toa que Ted Chiang, apesar de poucas obras, já recebeu os prêmios mais importantes da categoria – RESENHA COMPLETA AQUI


06 O Evangelho Segundo Jesus Cristo de José Saramago
Único Nobel de Literatura em idioma português, Saramago é um verdadeiro gênio. Aqui, ele faz um retrato humanizado e terreno do personagem mais conhecido da história, Jesus Cristo. Seu nascimento, medos, incertezas, milagres e alguns temas mais polêmicos são vistos sobre o ponto do escritor que nunca escondeu ser ateu. Com a escrita única do português, este livro é uma verdadeira maravilha.



05 Vozes de Tchernóbil de Svetlana Alekisiévitch
Livro que relata o maior desastre nuclear da história, a explosão dos reatores da Usina nuclear de Tchernóbil, sobre o ponto de vista das vítimas. Aqui, a autora, que também foi laureada com o Nobel de Literatura, silencia sua voz para dar lugar aos que sofreram e ainda sofrem o peso da radiação, da incerteza, do preconceito e da ignorância. É impossível chegar ao fim do livro e não se emocionar com os relatos de cada sobrevivente – RESENHA COMPLETA AQUI



04 Servidão Humana de William Somerset Maugahm
Há um adaptação cinematográfica que não faz jus a esta obra. O livro narra a história de crescimento, amadurecimento, abismo e redenção de Phillip Carey. O autor consegue imprimir, através de sua escrita, uma imersão na leitura que poucas vezes presenciei na literatura. De quebra o autor usa os anseios do personagem pra discutir religião, filosofia, arte e até que ponto somos nossos próprios algozes. Este é daqueles livros que ficam com você após a leitura RESENHA COMPLETA AQUI



 03 It – A Coisa de Stephen King
Como já virou habito, tio King dá as caras por aqui. Neste calhamaço de mais de mil páginas, vemos como um grupo de garotos se une pra tentar acabar com o império de morte e medo do palhaço Penywise. Porém, o livro vai além de uma palhaço assassino: é uma montanha russa de emoções pautada na amizade e companheirismo dos nossos pequeninos. Lágrimas, risos, sustos... Aqui, você encontra tudo isso e mais além. "Pode apostar seu couro nisso" (RESENHA COMPLETA AQUI)


02 O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas
Nossa segunda posição é um dos livros mais divertidos e instigantes que já li. Alexandre Dumas, um dos autores mais conhecidos da história (autor de "Os Três Mosqueteiros"), cria um universo onde a palavra que move as engrenagens é a vendeta. Aqui, acompanhamos a saga de vingança de Edmond Dantès que após ser enganado em uma conspiração envolvendo até o imperado Napoleão Bonaparte, volta após vinte anos pra destruir a vida de seus algozes. Uma escrita fluída e instigante que fazem as mais de mil e seiscentas páginas serem devoradas num piscar de olhos Era meu favorito do ano até que li...  (RESENHA COMPLETA) AQUI 


01 1984 de George Orwell
“Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força”.
Os outros livros até que me paira uma dúvida se estão nas posições corretas. Não este. 1984, apesar de se tratar de uma distopia, o livro assusta porque vemos um pouco de nossa realidade refletida nele: governos opressores, o medo como forma de dominação, ideologias capengas e, o principal, a apatia do povo. Acompanhar a saga de Winston Smith é ver como somos manipuláveis e deixamos nos agradar por tão pouco. De quebra, o autor cria ideias e conceitos que hoje fazem parte da nossa vida: "duplipensamento"; "quem controla o passado controla o futuro"; e a que mais ecoa nos dias de hoje, “o Grande irmão – Big Brother – está de olho em você”. 1984 é um alerta para o futuro. Sobre como nós, sociedade, temos a obrigação de lutar por um mundo melhor e nunca, jamais, deixar que o medo e a apatia sejam o que nos define. Por isso, e tantos outros motivos Mil Novecentos e Oitenta e Quatro merece o lugar mais alto neste pódio RESENHA COMPLETA AQUI

É isso aí pessoal. Espero que vocês tenham tidoeituras gratificantes em 2017 e que 2018 seja tão rico e estórias e histórias como foi pra mim este ano que passou.

Falous...

[RESENHA] Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch


"Destino é a vida de um homem, história é a vida de todos nós. Eu quero narrar a história de forma a não perder de vista o destino de nenhum homem"  




Em 1997, uma escola no distrito de Columbine sofreu um atentado de dois estudantes ceifando 12 vidas. A opinião pública tentou traçar uma relação entre o massacre e o fato dos dois jovens, Eric Harris e Dylan Kelbold, escutarem o rock de Marilyn Manson (o que provou-se um erro já que mais tarde descobriu-se que os jovens detestavam Marilyn Manson). Quando o cineasta Michael Moore entrevistou o músico para seu documentário ganhador do Oscar “Tiros em Columbine”, ele perguntou o que Manson diria para as vítimas acerca de tudo que está acontecendo. Manson respondeu: “nada. Eu não diria nada. Eu ouviria o que eles tem a dizer. O que pouca gente fez até agora!”

Esta premissa de Manson, de escutar o ponto de vista das vítimas não é muito usual. Sempre que um determinado acontecimento de proporções gigantescas ocorre, aparecem especialistas na tentativa de elucidar o porquê de tal cabendo as vítimas apenas um pequeno espaço quando, na verdade, elas deveriam ter suas vozes ouvidas e ecoadas. É isso que a ganhadora do Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévich faz em seu emocionante Vozes de Tchernobil sobre o desastre que aconteceu na usina Nuclear de Tchernobil, Ucrânia, em abril de 1986. 

Chegar até o final do livro é como levar um soco no estômago haja vista o aporte emocional presente naqueles relatos. E mais ainda: notar que por mais que nossa empatia trabalhe para diminuir a distância entre o sofrimento alheio e a indiferença, ainda há um abismo que nos distancia de quem sente até hoje o peso da radiação. 
Falam da guerra. Da geração da guerra. Comparam… A geração da guerra? Mas ela é feliz! Tiveram a Vitória! Isso lhes deu uma grande energia vital, ou, como se diz agora, uma poderosa carga de vivência. Eles não temiam nada. Queriam viver, estudar, ter filhos. E nós? Nós temos medo de tudo. Tememos pelos nossos filhos, pelos netos que ainda não temos. (…) Todos estão depressivos. O sentimento é o de estarem irremediavelmente condenados. Para uns, Tchernóbil é uma metáfora, um símbolo. Para nós, é a nossa vida. Simplesmente a vida.  
Svetlana, por um longo período entrevistou um número sem fim de pessoas que tiveram suas vidas modificadas naquele dia. Deixando sua voz de lado para dar lugar a outras vozes, a autora, que nasceu na Bielorrussia, pais que recebeu a maior dose de radiação, faz um compilado devastador, angustiante, pesado, triste e esperançoso do que é a vida pós Tchernóbil. E de que quebra ainda ilustra um panorama do era ser  “o homem” soviético.


Aqui, acompanhamos os relatos angustiantes da esposa que insiste em visitar o marido, bombeiro, vítima da radiação; da mãe que luta para que a filha, que nasceu com sequelas graves, possa ter um tratamento adequado e não sucumba ao preconceito; das várias pessoas que não querem – e não o fazem – abandonar a terra onde nasceram, hoje, contaminada pela radiação; das crianças que tiveram que deixar seu cãozinho para trás. Foram mais de 500 entrevistas que compilam um cenário triste e angustiante do que é a vida pós Tchernóbil.

Mesmo sem usar sua voz para descrever o que representou aquele  desastre, a altora sabe muito bem intercalar os vários depoimentos de forma a tornar o que poderia ser uma Quimera em uma narrativa coesa e dinâmica. 


Eu tenho doze anos. Passo o dia todo em casa, sou inválida. O Carteiro traz à nossa casa duas pensões, a minha e a do meu avô. As meninas da minha turma, quando souberam que eu tinha câncer no sangue, ficaram com medo de sentar do meu lado. De me tocar. Mas eu olhava as minhas mãos, a minha pasta e os meus cadernos. Não havia nada de diferente. Por que tinham medo de mim? Os médicos disseram que eu adoeci porque o meu pai trabalhava em Tchernóbil. Mas eu nasci depois disso. E eu amo papai.    

Entre esses tantos relatos há espaço para um vislumbre do que foi o homem soviético. Um cidadão resiliente que sempre acreditou na figura de um líder salvador mas que na verdade, era só um joguete nas mãos de quem não se importava e se vê perdido com o desmembramento da União Soviética.

Muito do que é relatado no livro de Svetlana parece mais um conto fictício. E não me refiro ao governo que só revelou o que realmente ocorrera quando já era impossível mantes a farsa, mas sim, como aquele insidioso dia pode destruir tantas vidas e modificar a forma como muitas deles observam o que estar vivo.

Longe de ser um livro de ler, Vozes de Tchernóbil é um emaranhado caótico organizado que ilustra o poder de uma narrativa forte quando se dá espaço aos verdadeiros personagens  de uma tragédia. Não espere sentir-se melhor após a leitura, pelo contrário: certas imagens narrativas ão de se misturar nos seus pensamentos diários e  o resultado é a tristeza e impotência. Porém, observar que aquelas pessoas, as vítimas da radiação, a despeito de todo sofrimento ainda acreditam que possa existir algo de bom após a radiação, te faz acreditar que possa existir beleza neste mundo. Mesmo depois da "rosa".
Boa Leitura.

Vozes de Tchernóbil ( Chernobylscaya Molitva, Chernobyl Prayer, 1997)
Páginas: 384
Autor:  Svetlana Aleksiévith
Editora: Companhia das Letras
Comprar: AMAZON 

[RESENHA] 1984 I "Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força..."


Nota: ★★

Caso não tivesse se tornado um escritor de ficção tão aclamado mundialmente, George Orwell, provavelmente, teria gravado seu nome na história. Foi um cronista e resenhista muito famoso e polêmico no seu tempo além de ter participado da Guerra Civil Espanhola – relato este que se tornou livro, “Lutando na Espenha” (Homage to Catalonia, 1938) – onde o autor além de fazer um relato sobre sua passagem pela guerra, faz uma crítica ferrenha ao regime comunista soviético. Porém, como muitos espíritos dotados de talento e inquietação, Orwell alçou voos maiores e entregou dois livros que são duas grandes alegorias e metáforas sobre as fraquezas humanas e o estado controlador, tendo como foco inspirador a União Soviética de Joseph Stalin – mas não restringido somente a isto: “Revolução dos Bichos” (Animal Farm, 1945) e “1984”. Aqui, trataremos do segundo que acabou por ser o último livro do autor que morreu no ano seguinte a publicação da obra.

1984 é o grande clássico das distopias. O mundo, após sucessivas guerras, acabou dividido em três grandes blocos: Eurásia, Lestásia e Oceania que estão sempre em guerra, mudando apenas quem ataca quem e qual bloco faz aliança com qual. O livro foca sua narrativa no personagem Winston Smith, morador de Londres (cidade que pertence ao bloco da Oceania) funcionário dO Partido (que controla tudo)que começa a questionar a realidade na qual está vivendo pois nota que o que vê, ao que tudo indica, não está de acordo com o que o lhe contam. Falando assim, parece só mais uma distopia que nos últimos tempos lotam as livrarias com suas narrativas ficcionais e que são esquecidas logo após o ponto final. Porém, 1984 é uma imersão em um mundo controlado por um governo onisciente que toca profundamente a psique de quem se aventura por essas páginas.

LEIA TAMBÉM: Alan Moore e sua visão do governo opressor e a apatia do povo

O livro é divido em três partes: a primeira trata de explicar o mundo onde Winston está inserido; a segunda foca nas inquietações do personagem; a terceira narra o desfecho dessa história. Navegando por essas três partes, Orwell cria um universo com um forte paralelo com a União Soviética de Stálin. O Partido que controla tudo está presente em toda seara de relações humanas. Seu comandante é o onipresente e onisciente “Big Brother” que observa tudo através das Teletelas - espécie de televisões que além de transmitirem conteúdo servem para espiar a vida das pessoas. Mas, o monitoramento não fica restrito a isso. A vida de cada individuo é observada de perto pelos membros do partido e até um sorriso em um momento inoportuno pode ser indicio de subversão.


E não é só pelo medo que todos são controlados. Com sua estrutura perene, o estado cria novas ferramentas para manter-se no controle. Desde novas versões pra fatos do passado até um novo idioma. Indo além e incutindo nas pessoas a ideia de que verdades excludentes podem coexistir desde que de acordo com os anseios e vontade do Partido. É o tal do Duplipensamento: 2+2=5... toda essa maquinaria dividida entre os vários ministérios do governo, não levam em conta o bem estar do população e sim a conservação da estrutura do Partido...

No momento em que escrevo esta resenha, estou lendo o livro Vozes de Tchernóbil (The Chernobyl Prayer, 1997), de Svetlana Alexijevich, Nobel de Literatura. Um livro fantástico sobre a catástrofe nas usinas nucleares na Ucrânia, e em meio a tantos relatos, um que se sobressai é a forma como o governo soviético controla as pessoas. Fica claro, através dos depoimentos, que o Estado anulou o individuo sobrando um ser que vive em prol dEle. Estado este que usa de suas artimanhas e hediondez para manter-se vivo. Orwell conseguiu transmitir em suas páginas essa mesma figura claustrofóbica e temível na figura do Big Brother. Entretanto, como o autor já disse em entrevistas, seu livro não é apenas uma critica ao Stalinismo mas a toda forma de totalitarismo e suas práticas.


Hoje, sempre consta na ordem do dia de algum mandatário, ou aspirante a tal, a figura de algo ou alguém que pode levar a derrocada  de nossa sociedade: os imigrantes, as mulheres, os gays, os comunas, os capitalistas.., são muitos os “monstros” à espreita só no aguardando da oportunidade para dar o bote. Fazem isso com o intuito de causar medo e repulsa e uma vez que compramos a ideia eles passam a ter o poder de fazerem o que quiserem. E, vejam, isso não é exclusivo de governos de esquerda. Muitos governos de viés liberais também tem seus monstros a serem combatidos. É só assistir a qualquer jornal que será fácil enxergar isto...

Em 1984, esse grande vilão é Emmanuel Goldstein. Um traidor da pátria com sua eterna tentativa de revolução, porém, o que fica subentendido é que Goldstein nem exista sendo somente um artificio  do governo para justificar suas posições questionáveis e sua tirania contra o povo.


O final do livro é de um pessimismo acachapante. Ali, no mistério do Amor (ironicamente chamado assim pois neste ministério é que ocorrem as torturas), vemos como o Estado usa de todo seu aparato  para obrigar as pessoas a dobrarem-se a sua vontade. Não há escapatória. Na época, muitos criticaram Orwell por essa visão desesperada e pessimista. O que eles esquecem é  do momento histórico no qual o livro fora concebido:

A Segunda Guerra Mundial recém havia terminado; o mundo ainda respirava o medo radiônico de Hiroshima e Nagasaki; a ONU havia aprovado a divisão da Palestina em dois estados contra a vontade do povo ÁrabeStalin continuava à frente do vasto império soviético; e tinha se consolidado os dois blocos da Guerra Fria. Num cenário como este, onde o fim do mundo radiativo se apresentava com uma ideia nada absurda e os governos demonstravam sua força para além da misericórdia humana, não é de espantar que Orwell capitou esse negativismo e transcreveu isso em suas páginas. Eu, da minha parte, achei o final condizente com tudo que fora apresentado na obra.

1984, antes de ser um estudo do passado é um alerta sobre o futuro. Sobre como nós, como sociedade, como povo e como nação nos comportamos ante as pessoas, instituições e corporações que tentam nos controlar através do medo, do desejo, da necessidade, do messianismo. E, como bem sabia o Big Brother: “quem controla o passado controla o futuro”


Pra fechar este corolário, em uma época em que o medo pode nos levar a acreditar em qualquer governante que apresente uma solução imbecil, cito uma frase de uma Graphic Novel que gosto muito, V de Vingança
"Igualdade, justiça e liberdade são mais que palavras, são perspectivas"  

Boa Leitura.

1984 ( 1984, 1949)
Páginas: 416
Autor:  George Orwell
Editora: Companhia das Letras
Comprar: AMAZON

E agora, o que sobra depois disso tudo?


Outro dia filmei algumas formigas fazendo seu trabalho habitual. Elas caminhavam em fila, cada qual levando seu fardinho de folhas com seu propósito bem delimitado por sua programação biológica. Não sei o que se passa na cabeça de uma formiga; se ela para e pensa: bem, hoje não vou trabalhar! Vou ir pro baile anual das formigas natalinas pois a vida é muito curta, ou coisa assim. O fato é, ao que tudo indica, o propósito da formiga é este: nascer, crescer, carregar folhas – reproduzir, quando pertencente a esta casta- e morrer, mesmo que elas não saibam disso...

Daquele dia em diante, e cada vez com mais frequência, me pergunto qual o sentido da vida. Para o religioso a resposta e bem simples: isso aqui é só um laboratório onde você será testado no decorrer da sua vida. Cada escolha sua determinará qual será seu destino em uma outra vida. Agora, para pessoas que não são assim, tão atadas a princípios místicos, as coisas podem não ser tão simples assim... 

Claro, há aqueles que creem que não há propósito algum sendo a vida uma simples manifestação de processos químicos e biológicos e que um dia, de acordo a Termodinâmica e sua Entropia, tudo resultará em uma estagnação total de energia levando ao que chamamos de morte. Mas, infelizmente, não me sinto pertencente a nenhum desses dois grande grupos...

Sendo assim o que me resta? Qual seria o sentido de tudo isso? E, acima de tudo: será que há algum sentido em tudo isso?

Sim, eu sei que muitas pessoas melhores e mais inteligentes que eu se debruçaram sobre estas questão e muitos, provavelmente a maioria, falhou em chegarem alguma conclusão que sanasse seus questionamentos. Mesmo assim, é complicado não pensar nisso. De uns tempos pra cá muitos que me são próximos estão partindo deste plano e toda vez que isso ocorreu – alguns inclusive novos demais – perguto-me: e agora? Será que há algo além da luz branca no fim do túnel? Será que há o tal túnel? E a luz?

Por vezes vejo tanta maldade no mundo, tanta gente boa padecendo que me forço a acreditar que tende haver algo. Não pode ser justo que haja tanto sofrimento direcionado a pessoas boas ou inocentes sem que exista alguma coisa atrás da cortina que dê a verdadeira felicidade a essas pessoas. Não pode ser justo acabar tudo assim, eternamente para aquela criança que morreu porque uma bomba jogada por alguém em um banker acertou o alvo errado; ou que aquele jovem tenha morrido porque suas células simplesmente começaram a se reproduzir de forma desenfreada...

E tem momentos que chego a uma espécie de esboço de conclusão que, enfim, é só isso mesmo. As asas indiferentes do azar estão aí roçando em qualquer um e é impossível determinar quem será o próximo acariciado pelo seu abraço. E tanto uma conclusão quanto a outra me assustam!

Havendo um outro Onde, quem define quem vai para o lugar bom e o lugar ruim? Não, não compactuo com a ideia de um ser divino, misericordioso e de amor que deixaria seus filhos arderem eternamente no fogo da perdição. Dona Lú, senhora minha mãe, com todas as suas loucuras e contradições não deixaria que isso ocorresse com este que vos escreve. Imagina em ser de amor! E, no outro espectro, viver assim, sabendo que após isso não há nada, o que sobra para esses que foram tão cedo e não puderam desfrutar daquilo de bom que nosso mundo doido e inconstante tem para oferecer?

Claro que não cheguei à conclusão alguma. Ideias assim são abstrusas demais para uma mente tão pequenina que nem a minha. Quem sabe algum dia chegue a alguma conclusão. Ou talvez a ciência evolua e possa provar a totalidade dessas coisas. Ou eu possa ser tocado pela chama de algum espectro divino e me encontre em alguma forma de fé onde as respostas serão todas respondidas. Enquanto isso, tento ser que nem as formiguinhas com seu caminho, tentando viver com algum propósito, mesmo sem saber qual propósito seria...  


Livros de Sangue: vol. 1 I o horror em sua forma crua


Livro de contos de Clive Barker

Nota: ★★

Clive Barker conseguiu se firmar como um expoente do terror e fantasia graças a sua grandiosa imaginação. Adentrar o universo criado por Barker é ter certeza de perscrutar histórias que trarão uma gama acachapante de sensações: medo, nojo, ansiedade, prazer, lascívia,  tudo se mistura neste caldo e o resultado só poderia ser ótimo.

Livros de Sangue é uma série de seis livros de contos. Neste primeiro volume, somos apresentados a seis contos onde a surpresa é o que impera. O autor consegue surpreender de forma ímpar com suas histórias que além de inventivas, são escritas com um detalhismo tão profundo que não seria surpresa acreditar serem fatos verdadeiros não fosse a natureza surreal do enunciado.

O primeiro conto, “Livro de Sangue”, que serve como uma espécie de prelúdio tem como premissa uma casa assombrada. Mas, não espere para uma narrativa comum de fantasmas e demônios: uma investigadora de fenômenos paranormais está fascinada com seu novo pupilo, porém, ela desconhece que as mentiras dele irão despertar a ira dos mortos. Neste conto, além de muito terror e violência, há uma nuance muito forte e presente nos livros de Barker: o sexualização - que é retratada de forma mais forte em outro livro seu resenhado aqui no blog, O Desfiladeiro do Medo  - resenha AQUI

Os outros contos vão desfilar toda a genialidade de Clive Barker. Os roteiros são bem engendrados e os personagens são de uma pluralidade incrível. Desde um psicopata (O Trem da Carne da Meia Noite), passando por um porco (Blues do Sangue de Porco) que te fará enxergar esses bichos com outros olhos. E temos até um gigante feito de pessoas (Nas Colinas, as Cidades). De todos eles, destaco o incrível “O Yattering de Jack”, onde um demônio tenta assombrar um homem em particular, porém não será nada fácil. Neste, o humor negro impera dando um tom irônico e inventivo ao conto.  

Livros de Sangue, Vol. 1  é um livro raro por essas bandas e quando encontrado, o preço acaba por afugentar o leitor. Mas, caso você consiga ter acesso a este incrível material, terá de concordar com o que o mestre do terror, Stephen King, disse sobre Clive Barker: “Eu vi o futuro do Horror... E seu nome é Clive Barker”.

Boa Leitura!


Livros de Sangue: vol. I ( Books of Blood: vol. I, 1984)
Páginas: 233
Autor:  Clive Barker
Editora: Civilização Brasileira