[RESENHA] A Revolução dos Bichos, de George Orwell

Além de versar sobre o fracasso da URSS, Orwell cria um retrato pessimista das interações humanas com as estruturas de poder e seu cisma em se tornar aquilo que um dia já abominou...
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Ano passado quando li o excelente 1984 – resenha AQUI – percebi que, apesar do autor se referir a União Soviética, a história de Winston e companhia também era um grito de desespero à toda forma de apatia, manipulação e conformismo que um povo pode se deixar levar pautados principalmente pela burrice e pelo medo. Em A Revolução dos Bichos (Animal Farm), o paralelo traçado com a URSS é mais notório que em 1984, porém, há sempre um subtexto latente clamando por atenção e que versa muito sobre como nós interagimos em nossas relações humanas e como nos portamos ante as formas de poder (quando ele está em nossas mãos ou quando o reconhecemos nas mãos de outrem...

Escrito em 1945, ano em que findou a Segunda Guerra Mundial, Revolução dos Bichos narra a história de uma fazenda em que os animais, cansados da exploração, miséria e negligência com o qual eram tratados pelo dono humano, decidem começar uma revolução pautados pelo ideal de cooperativismo e igualdade. Mas, o que era pra ser algo que libertaria os animais, acabou por trazer grilhões mais firmes ainda.

A forma que o autor decide contar esta história é interessante. Começa com uma reunião entre os bichos comandados pelo porco Major. Este, que  é  uma animal respeitado na fazenda pela inteligência (na sátira, os animais mais inteligentes seriam os porcos) e experiência de vida, faz um relato de todos os mau tratos sofridos pelos animais e salienta que isso tem que acabar e, para isso é necessário a união dos animais para combater a imperialismo dos humanos. Logo em seguida, Major morre cabendo aos porcos, Bola de Neve e Napoleão, o comando da revolução.

É fácil traçar um paralelo entre personagens reais e os porcos de George Orwell. Major representa Karl Marx, que foi o grande idealizador do projeto de igualdade entre as classes. Porém, as coisas ficam mais interessantes quando olhamos os paralelos traçados entre os personagens Bola de Neve e NapoleãoBola de Neve, queria que a revolução na fazenda fosse só o começo de uma revolução geral que aplacasse todas as fazendas. Já Napoleão, acreditava que antes de pensar em outras revoluções, é necessário fortalecer a fazenda pós-revolução. O antagonismo entre ambos fica claro e não tardará até um acabar sabotando o outro.

Bola de Neve claramente representa Trotsky que acreditava que, enquanto todos os outros países não acordassem para o mal da exploração do homem pelo homem, a revolução não adiantaria nada. Já Napoleão é a figura de Stálin que achava isso bobagem. Cada país que lide com seus problemas. Melhor era a URSS forte para servir de exemplo. Não precisa dizer qual porco saiu vitorioso.

A história acabou por mostrar que o ideal socialista não passou de um sonho. Nos países em que fora implantado, seus líderes rapidamente esqueceram quais eram os motes que pautavam a revolução e o que se viu foi um despotismo atroz . Os privilégios que outrora foram de um grupo que detinha o poder, após a revolução, não deixou de existir, simplesmente trocou de mãos de outros (e não precisamos buscar nos anais da história para ver casos assim. É só observar com um pouco de atenção as nossas relações que iremos enxergar isso sempre que uma determinada forma de poder hierárquica está presente – confesso que lembrei muito do meu serviço enquanto lia o livro, rs...) 
"Todos os animais são iguais
mas alguns,
são mais iguais que outros "
 
Orwell não só aplica isso em sua sátira como também se apropria de conceitos recorrentes nesses países (principalmente a URSS) que salientam o quanto o poder corrompe os seres humanos. Como nas passagens em que Z acaba afirmado que determinados fatos do passado não aconteceram  como os outros animais lembravam pois ele, Z, se “lembra” do que realmente ocorreu. Esta ideia de alterar o passado também será usado pelo autor em 1984 – quem controla o passado controla  o futuro.

Mas, saindo um pouco das esferas de poder e indo para a base do negócio, aí sim vemos como o autor faz um retrato nada indulgente do ser humano. Mesmo os animais recordando que a vida ficou pior depois da revolução eles nada ou pouco faziam para mudar este quadro. Apesar de serem a força motriz que mantinha toda a estrutura funcionando (proletariado), preferiam se apegar a ideia de que um dias as coisas ficariam melhores e eram envoltos em em uma atmosfera de medo e subserviência que é um espelho da vida real. E é aspecto do livro que o torna tão fantástico.

Toda vez que olhamos para um politico ou qualquer forma de autoridade e esquecemos que ele não é um ídolo ou um deus, mas sim, um individuo que deveria trabalhar para o bem estar social,  estamos  alimentando um sistema que tende a manter as coisas como estão. É ilusório acreditar que tirando A para colocar B no comando, teremos um país e um mundo mais digno. É preciso uma mudança de paradigmas mas isso leva a um ponto onde teríamos de acarretar mudanças em nós mesmos. Lembro de uma frase que o vilão Ultron usou referindo-se aos vingadores: “vocês querem mudanças mas não querem mudar”. Orwell capturou esta essência e romanceou o que vemos acontecendo através dos tempos: um mundo de seres que anseiam por poder e não enxergam que o que se tornaram, quando no lugar mais alto do pódio, é aquilo que tanto lutaram para acabar.

Mais do que versar sobre a URSS, A Revolução dos Bichos traça  um perfil do homem(s) que anseia por uma vida melhor mas que é incapaz de mudar para finalmente alcançá-la e por isso está fadado a repetir os erros do passado continuando a rescrever a história de forma infinita e eterna...

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A Revolução dos Bichos (Animal Farm, Reino Unido,c1945)
Páginas: 152
Autor:  George Orwell
Editora: Companhia das Letras
Comprar: AMAZON

[CRÍTICA] filme, O Túmulo dos Vagalumes


Vagalumes, guerra e crianças. Um conjunto que fará qualquer im chorar por horas...   
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O Studio Ghibli notabilizou-se, dentre outros fatores, por trazer animações com mensagens bonitas, pautadas no companheirismo, na importância da amizade e por seus finais felizes. Assistir suas produções é ter certeza de sair da sala com um tanto de esperança à mais nas pessoas e na vida. Bem, não é o caso da animação O Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no Haka). Tendo como pano de fundo o fim da 2ª Guerra Mundial, a história dos irmãos que tentam sobreviver em meio ao caos e as incertezas num Japão em frangalhos é carregada de uma carga emocional tão grande que mesmo sendo uma animação, é impossível não sentir um aperto no peito e uma vontade genuína de chorar. 


A segunda Guerra Mundial serviu de base para muitas estórias. Livros, filmes, games, todas as plataformas possíveis já beberam muito desta fonte. Alguns países, mais do que outros, carregam um certo estigma desta parte sombria da nossa história. E um evento deste porte é um  nicho bastante vasto onde se pode extrair muita coisa interessante. Em O Túmulo dos Vagalumes, o aspecto que mais se sobressai é a perda.

Na animação, acompanhamos os irmãos Seita e Setsuko, passando pelos agouros da vida na guerra. O que a história mostra, é o que sempre me chama atenção nesses conflitos, é como fica a vida de gente comum no meio desta carnificina. Após perder a mãe depois de um bombardeio cabe a seita a tarefa de cuidar da irmã. Ambos se mudam para a casa de um parente porém a vida ali se torna quase impossível obrigando-os a irem embora tendo apenas eles mesmo com quem contar.

A animação é cheia de momentos que exigem um esforço do espectador para não chorar. Tudo é muito difícil para os irmãos. As coisas básicas começam a ter contornos de milagres. É duro ver a odisseia deles em busca de comida – choca muito ver o estado de subnutrição ao qual  se encontra Setsuko, e a impotência do irmão de não ter como resolver (o que dizer de Setsuko chupando bolinhas de Gude fingindo serem balinhas?). Resta-lhes apenas acreditar que algo de bom vai acontecer e mudará este cenário.

Mesmo pautado por um pessimismo absurdo, a animação conta com cenas lindas e algumas até divertidas. É hilário ver Seita entrando nas casas para roubar comida aproveitando que os moradores as abandonaram para fugiram dos bombardeios aéreos. A beleza fica por conta do munto quase lúdico que Seita tenta criar pra preservar um pouco da inocência da irmã. As cenas com o Vagalumes  na gruta parecem terem saído de uma realidade onde a beleza é o único adjetivo reinante. Mesmo assim, a cena termina com uma metáfora do que os espera e se você conseguiu segurar as lágrimas até li, não adianta mais lutar. E o fato de ser uma animação não ameniza em nada.
Seita, porque os vagalumes morrem tão cedo?  
Esta foi a segunda vez que assisti a este anime e tudo teve um contorno mais apavorante ainda pois sabia de antemão que se tratava de um relato parcialmente biográfico (há uma entrevista dele, inclusive, dizendo que quando a irmã morreu, sentiu até um certo alívio pois não teria mais aquele "fardo". E quem pode julgar um menino por pensar assim?). E, quanto penso que em algum lugar do mundo, neste momento, existem outras Setsuco, fica difícil entender porque nos damos o nome de sapiens.


Tumulo dos Vagalumes é um relato duro, pautado sobre o poder devastador da perca e de como guerras e conflitos em geral, acabma estruindo vidas que não pediram para que ela aconteccesse e nãopediram para estar ali.

Filme mais que recomendado. Só não esquece de levar vários lenços e saber que durante alguns dias, sua percepção de vida será carregada por muita reflexão e muita tristeza...



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O Túmulo dos Vaga-lumes (火垂るの墓, Japão, 1988)
Gênero: drama, animação
Roteiro: Isao Takahta
Direção: Isao Takahta
Duração: 93 min. 

[RESENHA] O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago

Apresentando um lado humanizado de Jesus Cristo, José Saramago nos apresenta sua visão das escrituras e deixa às seguintes perguntas: Jesus foi um Deus abençoado? Um homem com dúvidas em relação a sua missão redentora? Ou um misto disso?   
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José Saramago, em uma de suas entrevistas, afirmou que seus livros não eram feitos para que as pessoas se sentissem bem, mas sim, para deixa-las inquietas, desconfortáveis. Caso o autor não tivesse consigo isso em seus livros anteriores, sem dúvidas alguma, ele teria conseguido atrair os holofotes da inquietação com o polêmico “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Trazendo um Jesus humanizado, um Deus questionável, um demônio não tão maligno assim e seu sarcasmo característico, Saramago apresenta uma outra forma de ver a narrativa bíblica o que, é claro, gerou protesto robustos de instituições religiosas mas que não impediu o livro de ser aclamado pela crítica e público.

O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo. 
     
A primeira coisa que salta aos olhos ao ler um livro de José Saramago é sua escrita. O autor quase não usa pontuação e seus parágrafos são longos. Apesar de já ter lido outros dois livros do autor, “Ensaio Sobre a Cegueira” e “Caim”, confesso que nas primeiras páginas patinei pra me acostumar. Entretanto, conforme as linhas vão passando e você vai se envolvendo com a narrativa, isso deixa de ser um problema e o que fica é uma escrita rica, nada indulgente e com a ironia marcante do autor. Mas, o que ele, ateu confesso, teria para escrever sobre Jesus Cristo que não venha a conter um tanto de heresia e até uma ou outra bobagem? Muita coisa meus caros,muita coisa.

O livro começa mostrando Jesus sendo crucificado e será exatamente onde ele irá terminar. O autor aqui não tenta contar uma outra história sobre a vida de Jesus. O que ele faz é contar a mesma história mas com um olhar diferente. E esta mirada em Cristo, pelas penas de Saramago, tenta trazer ao papel o verdadeiro significado de ser O escolhido numa visão mais humana sem deixar de lado o aspecto divino da história que compreendem as bases do cristianismo. E isso fica bem claro principalmente quando a autor vai discorrendo sobre os milagres de Cristo:

Transformar água em vinho; expulsar demônios (legião); multiplicar os pães e os peixes; ressuscitar Lázaro (mais sobre isso adiante); caminhar sobre às águas..., enfim, está tudo lá, mas não da forma que nos foi apresentado na Bíblia. Há sempre um componente humano em todas essas passagens que em alguns momentos, paradoxalmente, acabam tornando a trajetória de Jesus mais iluminada e mais admirável. E este aspecto da humanidade de Cristo é muito bem trabalhada em suas relações pessoais. Desde o pai terreno, José, que por determinado motivo Jesus acaba tendo problemas graves, passando por seu irmão Thiago e até sua Mãe, Maria, é alvo de uma ou outra contenda com o Jesus de Saramago. Mas, as relações mais interessantes de Jesus são com esses três personagens: Maria Madalena, o Diabo e Deus.


Desde O Código Da Vinci,  de Dan Brown, nos debruçamos para saber a real relação de Jesus com Maria Madalena: eles foram casados? Tiveram filhos? Era ela uma prostituta? Saramago não se acanha em responder essas perguntas e vai mais além mostrando que Maria de Magdala não só era bem quista pelo Nazareno como também tinha uma influência muito grande na vida do Messias. Na passagem de ressuscitação de Lázaro, quando Cristo está a ponto de proferir a famosa frase “levanta-te e anda”. Maria Madalena o interrompe  pede para que ele não o faça pois na visão dela, ninguém merece ter de morrer mais de uma vez.

Já o Deus de Saramago é um ser que não é tratado como infalível. Pelo contrário, é uma entidade que pode apresentar algumas características que nos fazem questionar quem realmente  é vilão da história: Deus ou o próximo individuo da nossa lista (há duas frases proferidas, uma por Deus na conversa entre Deus, Jesus e Diabo e outra por Jesus - esta principalmente - no momento de sua crucificação que exemplificam bem o que estou falando).


“Sendo Deus, tens de saber tudo, Até um certo ponto, só até certo ponto, Que ponto, O ponto em que começa a ser interessante fazer de conta que ignoro.” 

De longe o personagem mais intrigante e dúbio da narrativa, o Tinhoso está presente em vários momentos da vida de Cristo servindo, por um certo período até como mentor de nosso salvador. A relação entre eles e bem interessante e cheia de alegorias. Em alguns momentos passou pela cabeça deste que vos escreve quais eram as verdadeiras intenções do Demônio: prejudicar ou ajudar Jesus? Isso fica bem evidente em dois momentos. Na passagem, que na Bíblia, o Diabo tenta Jesus, aqui é visto por uma ótica distinta. É como se Satanás quisesse livrar Jesus de seu fardo e não pelos motivos apresentados nas escrituras. E o outro momento é na melhor cena do livro que é quando Jesus vai ao mar se encontrar com Deus. Ambos estão num barco e, após algum tempo, Satanás aparece, à nado, para participar da contenda. Esta, sem sombra de dúvidas é a uma das melhores, se não for a melhor, cena que já li em um livro. O conversa entre Deus, Jesus e o Diabo ficou pairando em minha cabeça por um bom tempo. Uma cena simplesmente fantástica.

Outro ponto que salto aos olhos é a pesquisa feita pelo autor ou no mínimo seu conhecimento da época em questão. São várias passagens, como no tratamento dispensado a Maria por José, que demonstram uma certa perícia em tratar assuntos daquela época.   

Claro que um livro sobre a vida de Jesus Cristo, o pilar da maior religião da atualidade não deixaria de levantar protestos acalorados do mundo cristão. Na época de sua publicação o sub-secretário de Estado da Cultura de Portugal, António Sousa Lara, recomendou que os portugueses não o lessem e baniu o livro dos prêmios literários do país. Claro que isso não é surpresa. Apesar de se tratar de FICÇÃO, o livro de Saramago, indiretamente, toca num dos pontos mais delicados e prevalentes do individuo: sua fé. Mas, se você conseguir empacotar sua fé e deixá-la descansando um pouco, aventure-se por este que sem sombras de dúvidas é uma obra excepcional da literatura universal.




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O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991)
Páginas: 428
Autor:  José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Comprar: AMAZON

[CRÍTICA] filme, Frances Ha

É impossível não se sentir uma pessoa um pouco melhor após assistir os 86 minutos desta história. Pautado em uma ideia que soa repetida, Frances Ha consegue se distanciar dos filmes homólogos com um roteiro elegante, uma direção acurada e  uma história de vida inspiradora
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Nota: ★★★★

A personagem título, Frances Ha, uma jovem que trabalha em uma companhia de dança como assistente pois não possui talento suficiente para fazer parte da elite da companhia, divide um apartamento com sua melhor amiga onde ambas vivem uma vida que quase se confundem: tem ideias parecidas sobre o mundo, dormem na mesma cama (Frances costuma afirmar que “somos como duas lésbicas casadas há muito tempo, que não fazem mais sexo”), não deixam ninguém interferir em suas vidas – principalmente homens – e não sabem muito bem o que fazer da vida.

Às coisas mudam quando a amiga de Frances decide se mudar para um outro imóvel com outra amiga. Daí em diante vemos como Frances, uma mulher de 27  anos mas que mais parece uma adolescente se comporta ante os dissabores da vida.

Filmado em preto e branco, o filme, num primeiro momento, parece querer usar deste artificio para evocar uma áurea de cool, porém, toda sua trama e diálogos não deixam que essa pretensão soe vazia trazendo uma história bela e divertida para esta fotografia. A cena em que ela corre feliz e dançante pelas ruas de Nova York ao som de “Modern Love” de David Bowie porque recebeu uma notícia positiva sintetizam toda essa beleza em película. E o principal motivo disso é a personagem central.

Frances (interpretada de forma excepcional por Greta Gerwig que também assina o roteiro), que parece meio maluquinha e por vezes toma atitudes impensadas, vive em uma espécie de sonho continuo: ser uma grande dançarina, conhecer o mundo, viver eternamente ao lado da amiga são suas motivações. Quando tudo isso desmorona, ela se vê diante de novos desafios mas sem perder a leveza quase inocente de antes. Ver que os tropeços de Frances nunca conseguem tirar sua alegria e júbilo ante as pequenas dádivas da vida, servem de estímulos para todos nós que por vezes deixamos de enxergar que, às vezes, nem tudo está perdido. E é encarando esses obstáculos que ela acaba encontrando seu lugar no mundo sem mudar o seu eu.

Frances Ha é daqueles filmes para se assistir de tempos em tempos e ver que na vida, nem sempre o que a gente quer da certo e é preciso procurar novos rumos. Isso sem perder os sorriso no rosto.


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Frances Ha (Frances Ha, EUA, 2012)
Gênero: comédia, drama
Roteiro: Noah Baumbach, Greta Gerwig
Direção: Noah Baumbach
Duração: 86 min. 

[RESENHA] Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos - A vida de Philip K. Dick, de Emmanuel Carrère

Antes de ler, saiba que esta resenha estará recheada de Spoliers. Leia por sua conta e risco...
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Este que vos escreve confessa que gosta muito de biografias. Sim, sou daqueles futriqueiros que gosta de saber a vida dos artistas. Nesta levada, já li a biografia Charles Manson, Kurt Coubain, Paulo Coelho, Olga Benário, do Pink Floyd, só pra citar algumas. Mas, confesso, que o que mais me impulsiona ao ler biografias é descobrir como é o individuo por trás do astro. Quais são seus paradigmas, ideias, enfim, tudo que ocasionalmente reflete no processo criativo do biografado em questão. E, parece-me até, lendo a história de vida de muitos artistas, que há uma correlação direta entre genialidade – melhor, criatividade – e loucura. Porém, nem nas minhas melhores conjecturas poderia imaginar o que iria ler na história de vida deste individuo chamado Philip K. Dick.


Philip K. Dick, se você não sabe quem é, foi um escritor de ficção cientifica responsável por escrever livros que viraram filmes marcantes: Blade Runner, Minority Report, Vingador do Futuro, dentre outros. Sim, aqui no Brasil o autor não é muito conhecido apesar de suas obras serem fantásticas, ricas e, talvez, terem um pé na realidade – mais sobre isso adiante. E isso também se refletiu em sua carreira pois, o autor só conseguiu viver tranquilo com os ganhos de suas obras já perto do final da vida apesar de ter escrito muita coisa.

Mas calma aí, estou atropelando tudo. Vamos para o inicio.

E Estou Vivo e Vocês Estão Mortos”, biografia escrita pelo francês Emmanuel Carrère, trata desde o nascimento de Dick, que logo em seus primeiros dias já foi abatido por uma tragédia, a morte de sua gêmea Jane, que terá um impressão acachapante no futuro de Dick,   até seu derradeiro momento. É interessante notar como Carrère pesquisou fontes, conversou com pessoas e em muitos momentos meio que romanceou sua biografia. Pode parecer meio confuso já que estamos tratando de uma biografia, mas não é. O trabalho de Carrère é muito bem feito e escrito de tal forma que te impede de largar a leitura. Vale ressaltar que este magnetismo ante ao livro não se deve somente a escrita do autor, mas também e principalmente a vida de Dick.

Gênio, louco ou iluminado? Está pergunta que ficará batendo em sua mente ao final desta biografia. Que Philip K. Dick era doidaço não há dúvidas, mas muitos naquela época eram. Estamos falando de meados do séc. passado onde o consumo de LSD e outros alucinógenos que visavam expandir a consciência, eram vistos como parte da rebeldia da juventude. Lembrem-se da icônica música dos Beatles: “Lucy in the skys with diamonds...”. porém Dick foi mais além.

"...pessoas dizem se lembrar de vidas passadas.
Eu digo que recordo de uma diferente,
muito diferente vida presente. "
 
  
A grande maioria dos seus livros lidam com seres que vivem em mundos que não são reais, espécies de simulacros ou realidades inventadas. São prisioneiros dessas falsas realidades e precisam descobrir uma forma de se libertar. Pois bem. Em determinado momento de sua vida, Dick começou a crer piamente que as bases de seus livros – a ideia de um mundo simulado – era na verdade real, que ele era um profeta tal qual João Batista e que seus livros nem eram de fato criações suas e sim, eram ditados por um ser divino. Louco, não?

De forma resumida: Philip K. Dick acreditava que vivíamos em uma Matrix gerada por realidade virtual tal qual o filme das Wachowski fez com Neo e seu bando no filme de 1999.

Não bastasse isso, Philip vivia com manias de conspiração de que estava sendo vigiado pela CIA e o FBI. Lógico que as pessoas à sua volta o tratavam por louco, porém, as coisas começam a adquirir uma tonalidade cinza quando muitas das ideias loucas de Dick começam a se concretizar. Só pra citar uma que talvez seja a mais intrigante:


ZONA DE EXPOILER ULTIMATE


                                                                                                                      Dick, através de uma visão, descobre qual a doença que seu filho tem – que os médicos não conseguiam diagnosticar – e salva seu descendente. Isto eleva as certeza de Dick e, até seu último suspiro, estava crente em tudo isso que declarava.

“ao ouvir um música dos beatles, "living is easy with yous eyes closed" uma luz branca o ofuscou e soube que seu filho estava com a hérnia inguinal direita encarcerado e precisava ser operado já...”  
Bem, mas não pense você que o Carrère foque somente nesta parte de Philip. Ele também aborda outros tópicos como o abuso de drogas, os vários relacionamentos e uma infinidade de coisas. Inclusive os livros do autor e aí esteja, talvez, o ponto fraco da obra. Na ânsia de discorrer o processo de criação dos livros de Dick, o autor acaba soltando vários spoilesr sem alertar previamente o leitor. Quem se incomoda com isso terá várias surpresas negativas.

Eu Estou Vivo e Vocês Estão Mortos, frase extraída de um dos romances de Dick e proferida por ele em uma conferência de ficção cientifica na França em 1977, é um belo retrato de um homem que viveu de forma ímpar seus dias aqui neste plano, foi taxado de maluco e deixou uma extensa obra. Quem sabe não o encontramos por aí, em outras realidades...   



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Eu estou vivo e vocês estão mortos (Je suis vivan et vous êtes morts, 1993)
Páginas: 360
Autor:  Emmanuel Carrère
Editora: Aleph
Comprar: AMAZON


[CRÍTICA] filme, Projeto Flórida

Projeto Flórida explora um lado triste da realidade americana sobre a ótica de uma criança que, mesmo em dificuldades, mantém-se assim: criança.
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Nos primeiros minutos do filme Projeto Flórida, quando acompanhamos Moonee (Brooklynn Price), uma garotinha de 6 anos, junto com seus amigos cuspindo no para brisas de um carro, notamos que o diretor está ali pra mostrar a realidade de um grupo às margens da riqueza sob a perspectiva dos pequeninos. A câmera que está quase sempre na altura dos olhos de Moonee e sua trupe nos submergem neste mundo sob  ótica deles. Isto serve, também, para observarmos as coisas com um olhar quase  infantilizado, porém, no decorrer do longa o diretor mostra que tem muita seriedade sendo tratada ali.


Em uma entrevista sobre seu filme anterior, Tangerine, filmado com a câmera de um iPhone, o diretor Sean Barker  declarou : “há algo sobre áreas caóticas que me intrigam”. Caótico! Talvez seja  este o termo que melhor sintetiza a história dirigida pelo diretor que tem atração por um lado da realidade que ninguém vê e, no caso em questão, ele trata de famílias que vivem em hotéis baratos em Orlando e no meio deste turbilhão acompanhamos a pequena Moonee curtindo suas férias de verão.

Morando no hotel curiosamente chamado de Magic Kingdom – mesmo nome de uma atração da Disneyland, acompanhamos Moonee e suas travessuras com seus colegas enquanto sua mãe, Halley (Bria Vinaite), relapsa e sem saber o que fazer da vida, não deixa de dar carinho a filha e o que ela acredita ser uma boa educação mesmo ela não sabendo muio bem o que fazer com sua própria vida. Pra tentar por ordem no lugar, que conta com outros desafortunados, há o gerente Bobby (William Dafoe), que parece durão mas que faz de tudo pra manter as coisas no lugar, nunca julgando ninguém e servindo até como uma espécie de guardião dos pequeninos.

Esta realidade, de pessoas vivendo com tão pouco ao lado de um dos maiores centros turísticos e idealizados do mundo (há até uma cena interessante envolvendo o deslumbre que nós brasileiros temos pela Disney), vai sendo nos apresentada aos poucos de forma dura, sem maquiagem e atenuantes. E sempre sobre a perspectiva de Moonee. Às cenas com ela na banheira são mostra disso pois só sabemos o que sua mãe está fazendo nestes momentos quando ela, Moonee também descobre. Neste ponto, assim como Moonee, ficamos um pouco sem palavras pois apesar do comportamento irresponsável da mãe outra pergunta vem a à tona: o que mais ela pode fazer? E, após mais uma atitude impensada de Halley, ficamos angustiados pois sabemos que o futuro delas, mãe e filha será alterado de forma radical.

Toda esta construção de situações e personagens passa por uma direção pontual e um roteiro assertivo e que fica maximizado com as interpretações. William Dafoe numa interpretação contida consegue apresentar toda uma gama de sentimentos com o olhar e os trejeitos. Sabemos pouco do seu passado mas seus gestos e feições dão conta de mostrar que apesar de tropeços da vida ele ainda tenta ser alguém decente. Brooklynn Price dá um show na pele de Moonee. Ela rouba toda as cenas com sua presença forte e nos faz torcer ainda mais para que tudo dê certo para ela e sua mãe. Ainda por cima, esta escolha do diretor de maximizar o olhar infantil faz com que os pequenos momentos de felicidade - como uma aniversário celebrado à bordas dos fogos de artifício da  Disney - sejam vistos quase como mágicos. A cena final – voltaremos à ela mais tarde – com Moonee e sua amiga é quase impossível não chorar. Esta garota promete.

Projeto Flórida, que também foi o nome que Walt Disney deu ao seu sonhado parque é um retrato de um mundo dos desvalidos que só tem eles mesmos com quem contar e, ver como as crianças encaram este mundo, sobre a perspectiva de um diretor que gosta do caótico, é ver que no fim das contas, elas continuam sendo isso, crianças. Isso fica bem observado na cena final quando Moonee, num desfecho inevitável da sua situação, corre até sua amiga e, juntas, decidem dar um rumo diferente as coisas que só é possível vivendo no Magic Kindon (reino mágico) das crianças.  

Nota: ★★★★

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Projeto Flórida (The Florida Project, EUA, 2017)

Gênero: Drama

Roteiro: Sean Barker
Direção: Sean Barker, Chris Bergoch
Duração: 115 min.

[CRÍTICA] filme, Jogo Perigoso

Suspense da Netflix explora as verdades ocultas de um casal que decide passar um fim de semana amoroso que acaba não dando muito certo. A obra é mais uma adaptação de uma obra de Stephen King
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2017 foi um ano feliz para os fãs de Stephen King. Desde 1976 quando “Carrie, a Estranha”, seu primeiro romance, fora adaptado para as telonas, os trabalhos do autor foram incansavelmente transportados para esta outra mídia. Claro, nem sempre o resultado foi o dos melhores. Não é o caso de Jogo Perigoso.

Jogo Perigoso (Gerald’s Game), é mais uma das apostas da Netflix em usar como material base uma das obras do autor. Seguindo muito do material original e acertando nas mudanças, Jogo Perigoso é um retrato bem elaborado das prisões que nossa própria mente cria e de como pode ser doloroso, literalmente, romper essas barreiras.

O filme se inicia com o casal Jessie, (Carla Gugino) e Gerald (Bruce Greenwood) indo passar um final de semana em uma casa isolada na ânsia de reascender a chama do casamento. Gerald tem a ideia de incluir uns jogos sexuais no fim de semana romântico e algema Jessie. Porém, Gerald acaba morrendo deixando Jessie algemada. Para escapar desta situação, Jessie terá de usar todo seu espectro imaginativo e reviver memórias dolorosas para escapar.

Dirigido por Mike Flanagan (Hush – A Morte Ouve), o filme se passa quase que completamente em um quarto. A narrativa é cadenciada. O inicio do filme é lento mas não enfadonho. As cenas onde o casal está interagindo pautada por diálogos reveladores a respeito do caráter de Gerald, mostram o tom que a narrativa irá seguir. A fotografia com um tom em sépia mas que não abusa de outros filtros, ajuda a criar o ambiente claustrofóbico e opressivo que o diretor quis passar. Depois de alguns minutos, é possível sentir que o medo de Jessie não é infundado.

Por falar em Jessie, a interpretação de Carla Gugino é que torna tudo verossímil. As expressões da atriz mostram todo sofrimento da personagem que precisará se refugiar dentro da sua mente para escapar dali. É onde as coisas começam a ficar melhor ainda.

Precisando reviver/vencer fantasmas do passado, Jessie “cria” personagens que podem lhe ajudar ou impedir que consiga fugir das algemas. Destaque para uma determinada lembrança de Jessie de quando ela era criança e assiste ao eclipse. O dialogo entre ela e seu pai chega a dar nó no estomago e pode se dizer que aquele evento moldou todas as escolhas de Jessie.

O toque sobrenatural do filme fica por conta de uma figura misteriosa que aparece na penumbra mas que, na verdade, só saberemos sua real identidade ao final do filme. Há uma trecho no final do filme onde alguém diz uma frase a esta figura possivelmente sobrenatural que sintetiza a verdadeira catarse de vencer uma prisão mental.


Jogo Perigoso é um filme de suspense que consegue entreter e surpreender. Mais umas das apostas originais da Netflix que sabem usar o matéria de Stephen King de forma certeira. Nós fãs agradecemos.


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Jogo Perigos (Gerald’s Game, EUA, 2017)
Gênero: Suspense
Roteiro: Jeff Howard, Mike Flanagan (adaptação do livro homônimo de Stephen King)
Direção: Mike Flnagn
Duração: 103 min.