[RESENHA] 1984 I "Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força..."


Nota: ★★

Caso não tivesse se tornado um escritor de ficção tão aclamado mundialmente, George Orwell, provavelmente, teria gravado seu nome na história. Foi um cronista e resenhista muito famoso e polêmico no seu tempo além de ter participado da Guerra Civil Espanhola – relato este que se tornou livro, “Lutando na Espenha” (Homage to Catalonia, 1938) – onde o autor além de fazer um relato sobre sua passagem pela guerra, faz uma crítica ferrenha ao regime comunista soviético. Porém, como muitos espíritos dotados de talento e inquietação, Orwell alçou voos maiores e entregou dois livros que são duas grandes alegorias e metáforas sobre as fraquezas humanas e o estado controlador, tendo como foco inspirador a União Soviética de Joseph Stalin – mas não restringido somente a isto: “Revolução dos Bichos” (Animal Farm, 1945) e “1984”. Aqui, trataremos do segundo que acabou por ser o último livro do autor que morreu no ano seguinte a publicação da obra.

1984 é o grande clássico das distopias. O mundo, após sucessivas guerras, acabou dividido em três grandes blocos: Eurásia, Lestásia e Oceania que estão sempre em guerra, mudando apenas quem ataca quem e qual bloco faz aliança com qual. O livro foca sua narrativa no personagem Winston Smith, morador de Londres (cidade que pertence ao bloco da Oceania) funcionário dO Partido (que controla tudo)que começa a questionar a realidade na qual está vivendo pois nota que o que vê, ao que tudo indica, não está de acordo com o que o lhe contam. Falando assim, parece só mais uma distopia que nos últimos tempos lotam as livrarias com suas narrativas ficcionais e que são esquecidas logo após o ponto final. Porém, 1984 é uma imersão em um mundo controlado por um governo onisciente que toca profundamente a psique de quem se aventura por essas páginas.

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O livro é divido em três partes: a primeira trata de explicar o mundo onde Winston está inserido; a segunda foca nas inquietações do personagem; a terceira narra o desfecho dessa história. Navegando por essas três partes, Orwell cria um universo com um forte paralelo com a União Soviética de Stálin. O Partido que controla tudo está presente em toda seara de relações humanas. Seu comandante é o onipresente e onisciente “Big Brother” que observa tudo através das Teletelas - espécie de televisões que além de transmitirem conteúdo servem para espiar a vida das pessoas. Mas, o monitoramento não fica restrito a isso. A vida de cada individuo é observada de perto pelos membros do partido e até um sorriso em um momento inoportuno pode ser indicio de subversão.


E não é só pelo medo que todos são controlados. Com sua estrutura perene, o estado cria novas ferramentas para manter-se no controle. Desde novas versões pra fatos do passado até um novo idioma. Indo além e incutindo nas pessoas a ideia de que verdades excludentes podem coexistir desde que de acordo com os anseios e vontade do Partido. É o tal do Duplipensamento: 2+2=5... toda essa maquinaria dividida entre os vários ministérios do governo, não levam em conta o bem estar do população e sim a conservação da estrutura do Partido...

No momento em que escrevo esta resenha, estou lendo o livro Vozes de Tchernóbil (The Chernobyl Prayer, 1997), de Svetlana Alexijevich, Nobel de Literatura. Um livro fantástico sobre a catástrofe nas usinas nucleares na Ucrânia, e em meio a tantos relatos, um que se sobressai é a forma como o governo soviético controla as pessoas. Fica claro, através dos depoimentos, que o Estado anulou o individuo sobrando um ser que vive em prol dEle. Estado este que usa de suas artimanhas e hediondez para manter-se vivo. Orwell conseguiu transmitir em suas páginas essa mesma figura claustrofóbica e temível na figura do Big Brother. Entretanto, como o autor já disse em entrevistas, seu livro não é apenas uma critica ao Stalinismo mas a toda forma de totalitarismo e suas práticas.


Hoje, sempre consta na ordem do dia de algum mandatário, ou aspirante a tal, a figura de algo ou alguém que pode levar a derrocada  de nossa sociedade: os imigrantes, as mulheres, os gays, os comunas, os capitalistas.., são muitos os “monstros” à espreita só no aguardando da oportunidade para dar o bote. Fazem isso com o intuito de causar medo e repulsa e uma vez que compramos a ideia eles passam a ter o poder de fazerem o que quiserem. E, vejam, isso não é exclusivo de governos de esquerda. Muitos governos de viés liberais também tem seus monstros a serem combatidos. É só assistir a qualquer jornal que será fácil enxergar isto...

Em 1984, esse grande vilão é Emmanuel Goldstein. Um traidor da pátria com sua eterna tentativa de revolução, porém, o que fica subentendido é que Goldstein nem exista sendo somente um artificio  do governo para justificar suas posições questionáveis e sua tirania contra o povo.


O final do livro é de um pessimismo acachapante. Ali, no mistério do Amor (ironicamente chamado assim pois neste ministério é que ocorrem as torturas), vemos como o Estado usa de todo seu aparato  para obrigar as pessoas a dobrarem-se a sua vontade. Não há escapatória. Na época, muitos criticaram Orwell por essa visão desesperada e pessimista. O que eles esquecem é  do momento histórico no qual o livro fora concebido:

A Segunda Guerra Mundial recém havia terminado; o mundo ainda respirava o medo radiônico de Hiroshima e Nagasaki; a ONU havia aprovado a divisão da Palestina em dois estados contra a vontade do povo ÁrabeStalin continuava à frente do vasto império soviético; e tinha se consolidado os dois blocos da Guerra Fria. Num cenário como este, onde o fim do mundo radiativo se apresentava com uma ideia nada absurda e os governos demonstravam sua força para além da misericórdia humana, não é de espantar que Orwell capitou esse negativismo e transcreveu isso em suas páginas. Eu, da minha parte, achei o final condizente com tudo que fora apresentado na obra.

1984, antes de ser um estudo do passado é um alerta sobre o futuro. Sobre como nós, como sociedade, como povo e como nação nos comportamos ante as pessoas, instituições e corporações que tentam nos controlar através do medo, do desejo, da necessidade, do messianismo. E, como bem sabia o Big Brother: “quem controla o passado controla o futuro”


Pra fechar este corolário, em uma época em que o medo pode nos levar a acreditar em qualquer governante que apresente uma solução imbecil, cito uma frase de uma Graphic Novel que gosto muito, V de Vingança
"Igualdade, justiça e liberdade são mais que palavras, são perspectivas"  

Boa Leitura.

1984 ( 1984, 1949)
Páginas: 416
Autor:  George Orwell
Editora: Companhia das Letras
Comprar: AMAZON

E agora, o que sobra depois disso tudo?


Outro dia filmei algumas formigas fazendo seu trabalho habitual. Elas caminhavam em fila, cada qual levando seu fardinho de folhas com seu propósito bem delimitado por sua programação biológica. Não sei o que se passa na cabeça de uma formiga; se ela para e pensa: bem, hoje não vou trabalhar! Vou ir pro baile anual das formigas natalinas pois a vida é muito curta, ou coisa assim. O fato é, ao que tudo indica, o propósito da formiga é este: nascer, crescer, carregar folhas – reproduzir, quando pertencente a esta casta- e morrer, mesmo que elas não saibam disso...

Daquele dia em diante, e cada vez com mais frequência, me pergunto qual o sentido da vida. Para o religioso a resposta e bem simples: isso aqui é só um laboratório onde você será testado no decorrer da sua vida. Cada escolha sua determinará qual será seu destino em uma outra vida. Agora, para pessoas que não são assim, tão atadas a princípios místicos, as coisas podem não ser tão simples assim... 

Claro, há aqueles que creem que não há propósito algum sendo a vida uma simples manifestação de processos químicos e biológicos e que um dia, de acordo a Termodinâmica e sua Entropia, tudo resultará em uma estagnação total de energia levando ao que chamamos de morte. Mas, infelizmente, não me sinto pertencente a nenhum desses dois grande grupos...

Sendo assim o que me resta? Qual seria o sentido de tudo isso? E, acima de tudo: será que há algum sentido em tudo isso?

Sim, eu sei que muitas pessoas melhores e mais inteligentes que eu se debruçaram sobre estas questão e muitos, provavelmente a maioria, falhou em chegarem alguma conclusão que sanasse seus questionamentos. Mesmo assim, é complicado não pensar nisso. De uns tempos pra cá muitos que me são próximos estão partindo deste plano e toda vez que isso ocorreu – alguns inclusive novos demais – perguto-me: e agora? Será que há algo além da luz branca no fim do túnel? Será que há o tal túnel? E a luz?

Por vezes vejo tanta maldade no mundo, tanta gente boa padecendo que me forço a acreditar que tende haver algo. Não pode ser justo que haja tanto sofrimento direcionado a pessoas boas ou inocentes sem que exista alguma coisa atrás da cortina que dê a verdadeira felicidade a essas pessoas. Não pode ser justo acabar tudo assim, eternamente para aquela criança que morreu porque uma bomba jogada por alguém em um banker acertou o alvo errado; ou que aquele jovem tenha morrido porque suas células simplesmente começaram a se reproduzir de forma desenfreada...

E tem momentos que chego a uma espécie de esboço de conclusão que, enfim, é só isso mesmo. As asas indiferentes do azar estão aí roçando em qualquer um e é impossível determinar quem será o próximo acariciado pelo seu abraço. E tanto uma conclusão quanto a outra me assustam!

Havendo um outro Onde, quem define quem vai para o lugar bom e o lugar ruim? Não, não compactuo com a ideia de um ser divino, misericordioso e de amor que deixaria seus filhos arderem eternamente no fogo da perdição. Dona Lú, senhora minha mãe, com todas as suas loucuras e contradições não deixaria que isso ocorresse com este que vos escreve. Imagina em ser de amor! E, no outro espectro, viver assim, sabendo que após isso não há nada, o que sobra para esses que foram tão cedo e não puderam desfrutar daquilo de bom que nosso mundo doido e inconstante tem para oferecer?

Claro que não cheguei à conclusão alguma. Ideias assim são abstrusas demais para uma mente tão pequenina que nem a minha. Quem sabe algum dia chegue a alguma conclusão. Ou talvez a ciência evolua e possa provar a totalidade dessas coisas. Ou eu possa ser tocado pela chama de algum espectro divino e me encontre em alguma forma de fé onde as respostas serão todas respondidas. Enquanto isso, tento ser que nem as formiguinhas com seu caminho, tentando viver com algum propósito, mesmo sem saber qual propósito seria...  


Livros de Sangue: vol. 1 I o horror em sua forma crua


Livro de contos de Clive Barker

Nota: ★★

Clive Barker conseguiu se firmar como um expoente do terror e fantasia graças a sua grandiosa imaginação. Adentrar o universo criado por Barker é ter certeza de perscrutar histórias que trarão uma gama acachapante de sensações: medo, nojo, ansiedade, prazer, lascívia,  tudo se mistura neste caldo e o resultado só poderia ser ótimo.

Livros de Sangue é uma série de seis livros de contos. Neste primeiro volume, somos apresentados a seis contos onde a surpresa é o que impera. O autor consegue surpreender de forma ímpar com suas histórias que além de inventivas, são escritas com um detalhismo tão profundo que não seria surpresa acreditar serem fatos verdadeiros não fosse a natureza surreal do enunciado.

O primeiro conto, “Livro de Sangue”, que serve como uma espécie de prelúdio tem como premissa uma casa assombrada. Mas, não espere para uma narrativa comum de fantasmas e demônios: uma investigadora de fenômenos paranormais está fascinada com seu novo pupilo, porém, ela desconhece que as mentiras dele irão despertar a ira dos mortos. Neste conto, além de muito terror e violência, há uma nuance muito forte e presente nos livros de Barker: o sexualização - que é retratada de forma mais forte em outro livro seu resenhado aqui no blog, O Desfiladeiro do Medo  - resenha AQUI

Os outros contos vão desfilar toda a genialidade de Clive Barker. Os roteiros são bem engendrados e os personagens são de uma pluralidade incrível. Desde um psicopata (O Trem da Carne da Meia Noite), passando por um porco (Blues do Sangue de Porco) que te fará enxergar esses bichos com outros olhos. E temos até um gigante feito de pessoas (Nas Colinas, as Cidades). De todos eles, destaco o incrível “O Yattering de Jack”, onde um demônio tenta assombrar um homem em particular, porém não será nada fácil. Neste, o humor negro impera dando um tom irônico e inventivo ao conto.  

Livros de Sangue, Vol. 1  é um livro raro por essas bandas e quando encontrado, o preço acaba por afugentar o leitor. Mas, caso você consiga ter acesso a este incrível material, terá de concordar com o que o mestre do terror, Stephen King, disse sobre Clive Barker: “Eu vi o futuro do Horror... E seu nome é Clive Barker”.

Boa Leitura!


Livros de Sangue: vol. I ( Books of Blood: vol. I, 1984)
Páginas: 233
Autor:  Clive Barker
Editora: Civilização Brasileira

[RESENHA] Servidão Humana | um ode a inquietação, abismos e asas...

Neste misto de autobiografia e ficção, o final da jornada só é superado pelo caminho feito até ali...


Nota: ★★

Se você me perguntar como cheguei a este livro a resposta é a seguinte: Se7evn – os sete pecados capitais. Caso você não tenha visto este filme, veja e saberá do que estou falando. Nunca havia lido nada do autor e fiquei maravilhado com sua escrita que consegue criar uma imersão profunda pautada na vida de sofrimento e superação do personagem central que tem um "Q" de autobiografico...

No livro somos apresentados a Phillip Carey que nasce com uma deformidade no pé que sempre será um ponto fraco físico e psicológico. Não bastando isso, a roda indiferente do destino fez com que o personagem perdesse os pais e fosse criado pelos tios que atados a compromissos religiosos com a paróquia, não tem tempo (talvez vontade?) de dedicar o amor que Phillip necessita - principalmente o tio. Doravante, acompanhamos a vida de Phillip, desde sua educação primária com forte viés religioso, passando pelo descobrimento dos prazeres sexuais, as mudanças na forma de ver e se relacionar com o mundo e, talvez o que, num primeiro momento chama mais atenção, sua relação de amor e ódio com Mildred...

Servidão Humana foi escrito no ano de 1915. Como muitos autores da época, William Somerset Mugham, em seus primeiros livros, faz uma mescla de sua vida e ficção: se no livro o Phillip é claudicante, William é gago; ambos estudaram em escolas religiosas e, posteriormente passam a ver a religião como algo claustrofóbico que serve mais para escravizar do que salvar o individuo...

Passeando por muitas searas do conhecimento – arte, filosofia, história, religião... – o autor consegue discorrer com maestria por todas elas de forma profunda, reflexiva e de agradável leitura – ficando só um pouco cansativo os momentos em que ele se alonga em demasia por vários parágrafos discorrendo sobre alguns pintores...

Independente de partilhar ou não com a visão do autor, é inegável que suas ideias tem um embasamento forte o que no mínimo gera um ponto de interrogação na cabeça do leitor. Principalmente no que concerne ao campo da religião: neste tema específico, vemos como Phillip vai aos poucos deixando que mais e mais incertezas tomem forma em sua mente fazendo com que as regras e dogmas cristãos fiquem de lado ante suas próprias sensações e vivências...  

E apesar de flutuar por muitos temas abstratos e intelectuais, o autor não deixa de lado as relações humanas. Assim, vemos a avareza e desejo de nortear a vida de seus pares na figura de seu tio, ou a da boêmia que leva ao ocaso na figura de um conhecido escritor que Phillip conhecera em Paris. Tudo isto feito de forma não apenas a te jogar informações mas para que você sente-se de frente para o espelho e pense: e eu, como vejo tudo isso? Mas, falar de servidão Humana e não citar a relação de Phillip e Mildred é impossível...

Desde as primeiras aparições de Mildred, o autor já deixa claro que ela terá um papel importante no sofrimento e, posteriormente, amadurecimento de Phillip. A forma como ele decide abordar esta relação imprime uma inquietação e até um dose de raiva: as humilhações que Mildred impõem a Phillip remetem aqueles relacionamentos em que uma das partes crê que de uma hora para outra o outro irá se transformar ante o amor lhe dispensado e toda sorte de sofrimento irá acabar. E neste caminho, Phillip, além de sofrer e amargar o dissabor da desilusão, acaba deixando de abraçar outras oportunidades de ser feliz...

Mas esta relação é uma espécie de microcosmo representando toda a vida de Phillip. Sua desilusão com a religião, a descida até a miserabilidade culminando com o limiar da fome até a redenção na figura de um conhecido, traçam um paralelo com a relação nada sadia dele e Mildred. É como se os picos de felicidade entremeados com longos períodos de sofrimento fossem uma extensão direta de sua devoção quase mística a Mildred...

Ler Servidão Humana é mergulhar num mundo onde as certezas sobre o que se é e como se vê as coisas são apenas borrões. Não há nada definido e no percurso de se encontrar no mundo você é jogado no mais puro abismo. Porém, ao se ver envolto nas asas das incertezas e das angústias, para aqueles que não se deixam sucumbir, é possível vencer os muros das próprias barreiras psicológicas e alçar vôos até então inimagináveis...

Boa leitura

Servidão Humana ( Of Human Bondage, 1915)
Páginas: 605
Autor:  William Somerset Mugham
Editora: Globo

[RESENHA] A Guerra do Paraguai | Ou, as mutações da história...

Apesar de importante, o maior conflito armado da America do Sul é pouco conhecido o que permite muitas interpretações para o mesmo fato...


Nota: ★★

O que mais me impressionou logo nas primeiras páginas deste livro foi notar que pouca coisa sabia a respeita deste guerra, que durou 1864 a 1870. A começar pelo nome: se aqui no Brasil batizamos de Guerra do Paraguai, por lá eles chamam de Guerra da Tríplice Aliança. E a desinformação não fica restrito ao nome do conflito. Com intenções politicas, figuras históricas foram alçadas ao patamar de heróis enquanto outros foram rebaixados ao status de demônios.  E ainda temos a questão que sempre emerge quando ocorre um conflito: de quem foi a culpa? Luiz Octavio de Lima, através de extensa pesquisa, mostra que as coisas não são assim tão claras e precisa-se de um pouco de parcimônia para entender com clareza este conflito que devastou a Paraguai e fortaleceu as forças armadas brasileiras que, dentre outros fatores, culminariam com a Proclamação da República anos depois.

Muito provavelmente você já deve ter escutado que o Paraguai em meados do século XIX era uma potência tecnológica e financeira, totalmente autossuficiente e que rivalizava, comercialmente, com a toda poderosa Inglaterra. Os ingleses, feridos em seu orgulho, não poderiam admitir isto e instigaram Brasil, Argentina e Uruguai a começarem uma guerra contra o Paraguai para findar com esta crescente potência. Ao que tudo indica, isso está muito longe da verdade.

Todos os países envolvidos no conflito eram majoritariamente agrícolas. Nenhum deles tinha um comercio de produtos manufaturados dignos de nota lhes restando apenas o comercio de produtos primários. Inclusive o Paraguai. Então, o que motivou a guerra. Para Luiz Octavio de Lima, os motivos são, basicamente, um reflexo da consolidação dos estados nacionais independentes e questões geopolíticas da região – fruto direto do conflito que trouxe a independência do Uruguai.

Na ânsia de viabilizar outra saída marítima para escoar sua produção, para não ter de depender dos humores de Buenos Aires, Francisco Solano Lopes, general e presidente paraguaio também chamado de El Mariscal, firma uma aliança com o Uruguai num pacto de defesa mútua. Quando o Brasil, por conta de querelas entre uruguaios e fazendeiros gaúchos, decide intervir no Uruguai, Solano Lopes cumpre o acordo de defesa mútua e, não seguindo os conselhos de seu pai que antes de morrer pediu para que o filho jurasse não entrar em guerra com o império, ataca o Brasil. Aí, temos o inicio de nossa guerra. Logo em seguida o presidente uruguaio é deposto subindo ao trono um mais favorável a causa brasileira e se junta a Don Pedro II, imperador brasileiro. Com a adição de Bartolomeu Mitre, a Argentina entra no conflito e o cenário daquilo que seria mais sangrenta e duradoura guerra da América do Sul está montado.

No livro, ficamos sabendo que o Paraguai possuía um grande exército e ainda contava com a bravura de seus soldados. Isso, porém, não foi suficiente para derrotar a tríplice aliança. E ao final da Guerra, temos um Paraguai devastado – nisso, é difícil precisar quantos paraguaios morreram, alguns estimam em 90% da população masculina e outros em 25% - e com percas territoriais. Claro que olhando esses números fica fácil julgar culpados os comandantes da Tríplice Aliança por essa carnificina, porém, não podemos esquecer o estrago causado pelo próprio Mariscal ao seu povo.

Solano Lopes, já sabendo que não teria mais condições de vencer o conflito, poderia hastear a bandeira branca e poupar seu povo de muito sofrimento. Apesar de hoje ser adorado, Solano Lopes era um tirano: perseguiu muitos adversários políticos, mandou açoitar a própria mãe e matar um irmão. Enquanto o povo passava fome, ele desfrutava de uma vida opulenta, tanto que Elisa Lynch, sua esposa, era tida como uma das pessoas mais ricas da região.


É óbvio que vilões não se encontram apenas no lado Paraguaio. Como toda guerra, as máscaras da maldade ficam sempre dos dois lados e nós também temos nossos demônios e o principal deles é o genro de Don Pedro, Cond’Eu. Aqui, não vou me delongar muito porque estou escrevendo algo sobre isto mas não posso deixar de mencionar dois fatos calamitosos perpetrados pelo conde: um incêndio há um hospital de feridos que matou vários paraguaios sem condições de combater e, talvez o mais triste, o massacre de Acosta Ñu.

A batalha de Acosta Ñu, que ocorreu no dia 16 de agosto e que marca o dia das crianças no Paraguai, foi uma passagem realmente triste da nossa história. Basicamente, Solano Lopes, com seu exército já devastado, recrutou crianças (CRIANÇAS) para lutar contra o exército brasileiro e este, comandado pelo Cond’Eu não se fez de rogado em mata-las. Ou melhor, massacrá-las. Muitas delas – a maioria – nem armas tinham, mas isso não arrefeceu os ânimos do conde e o que se viu foi uma carnificina/covardia sem tamanho. Pouco depois deste conflito Solano Lopes fora morto e a guerra acabou - aí você pensa: o que leva um comandante a colocar crianças pra lutarem e adversários lutarem com elas?

Logo após a guerra, a figura de Solano fora demonizada no Paraguai como alguém que levou o país ao colapso. Em meados do séc. passado, muitos revisionistas, com propósitos políticos claros, metamorfosearam a figura del Mariscal como alguém quase santo que lutou contra a tirania de países que tinham como interesse servir aos desejos da Inglaterra. É dessa época que vem a ideia de um Paraguai quase paradisíaco.

Longe de ser um livro definitivo sobre o tema, A Guerra do Paraguai, de Luiz Octavio de Lima, consegue lançar luz sobre algo pouco conhecido da história do Brasil e tenta espantar ideias propagandísticas sem nenhum viés histórico e documental. 

Claro, não me assustaria que daqui algum tempo, algum outro politico use isso,  guerra, com algum viés pessoal. Por isso que livros assim são importantes.

Boa leitura.

A Guerra do Paraguai (2016)
Páginas: 448
Autor:  Luiz Octavio de Lima
Editora: Planeta
Comprar: A Guerra do Paraguai

[RESENHA] It - A Coisa | Muito além de um palhaço assassino...


Nota: ★★

Derry é uma cidade peculiar. Contra as probabilidades dos especialistas a cidade conseguiu se desenvolver relativamente bem. Para alguns moradores é um local bom para se viver, para outros tantos, é uma cidade amaldiçoada. Ao final das mais de mil páginas do livro It, a Coisa, você se inclinará a concordar com o segundo grupo...

Durante a narrativa, vemos como uma porção de catástrofes e desastres assolaram Derry: um incêndio matando vários em um clube; a chacina a uns foragidos da lei com participação de grande parte da cidade; o homem que matou vários com um machado enquanto outros assistiam sem se importar e mais outras tantas tragédias que parecem indicar que Derry é um local amaldiçoado. E esta maldição tem um nome: Pennywise...

Pennywise, apesar de ter uma manifestação física, está em toda Derry. Em todo sentimento negativo que nasce pela face escura de cada individuo e que é potencializada ou iniciada pela influencia maligna de Pennywise...

Pennywise, o palhaço assassino, é uma criatura que nem sempre se apresenta nesta forma – apesar de esta ser a mais corriqueira. Tudo depende do seu medo. Alimentando-se do medo das pessoas, Pennywise esteve presente em todas essas tragédias e tem um interesse especial por crianças e somos apresentados a ele quando este decide matar Gerogie Denbrough – naquela cena icônica do barquinho e o palhaço no bueiro...

Quando li A Zona Morta, percebi que mais do que amedrontar as pessoas, os livros de Stephen King conseguem evocar um turbilhão de sentimentos dentro de nós. Você se vê, ao menos parcialmente, em alguma situação semelhante a dos personagens retratados. Mesclado a isto, adicione a escrita detalhista do autor para tornar cada livro de King uma verdadeira viagem sobre sentimentos e relações humanas. King consegue influir neles uma realidade incrível que parece serem seres de verdade que a qualquer momento irão sentar ao nosso lado da poltrona e interagir conosco...



E é isto, a relação entre nossos personagens unidos pelo mesmo destino (Ka-tet),  que é destruir o palhaço assassino Penywise, que tornam It, A Coisa, um dos melhores livros (se não o melhor) de Stephen King...

O Terror volta a assombrar a cidade de Derry no verão de 1985. Um jovem é morto e tem seu braço arrancado. Apesar disso não constar nos relatórios oficiais da polícia, um palhaço fora visto na cena do crime. Este evento trás à tona um juramento feito a 30 anos por sete crianças que mediante um pacto de sangue prometeram retornar a Derry caso o horror daqueles tempos ressurgisse. O livro é narrado de forma não linear alternado presente e passado e acompanhamos a vida de nossos personagens em duas épocas distintas. E, apesar da vida adulta deles ser interessante, é na relação entre eles enquanto crianças os melhores momentos do livro...

Apesar de termos umas pinceladas de terror nas páginas iniciais do livro, Stephen King, como de praxe, prefere desenvolver os personagens de forma amiúde para que nos familiarizemos com eles e nos importemos. É desta forma que acompanhamos as crianças Michael Hanlon (o único que quando adulto ficou em Derry sendo o primeiro a sentir sua presença), Richard Tozier (o piadista), Eddie Kaspbrak (hipocondríaco), Bill Denbrough (o líder não declarado do grupo), Stanley Uris (o escoteiro), Beverly Marsh (a garota do grupo e minha personagem preferida) e Ben Hasncon (o gordinho e construtor da tropa) formarem o Loser's Club, E depois, separados em suas vidas adultas – que a exceção de Beverlly, não é tão interessante assim...

O Losers Club, é um grupo de desajustados que encontram força e camaradagem para superar toda a sorte de mazelas que os espera. E põe mazelas nisto: bulliyng, violência doméstica, problemas psicológicos, morte, ausência, são todos componentes que tornam a vida de nossas crianças triste, mas apoiados e amparados um no outro conseguem mostrar a beleza que a vida pode ter ainda que esteja envolta em catástrofes. E esta interação entre eles evoca um sentimento de nostalgia que chega a doer. É impossível ler estas páginas e não sentir uma saudade imensa dos tempos de crianças e lembrar das brincadeiras, medos e aventuras daquela época...

E Penywise sabe que os Lossers tem poder. Isto fica claro desde o dia em que Ben encontra Bill e Eddie na represa ao fugir do maníaco Henry - um adolescente perturbado que exemplifica muito o espirito da cidade. É como se eles, Bill e Eddie estivessem esperando ele chegar para começar a compor Ka-tet. Outro ponto latente disso é quando Eddie está no hospital e uma áurea de energia quase sólida emana deles. E eles sabem que só eles podem deter a Coisa – como eles chamam o palhaço – pois os adultos não conseguem senti-lo. É como se estivessem anestesiados pelo poder da Coisa como quando o pai de Beverlly a persegue e um senhor olha indiferente e entra pra dentro de casa como se nada estivesse acontecendo...

Apesar de imenso, o livro consegue te prender e o final vertiginoso é devorado coma a voracidade de um homem que encontra um oásis no deserto. Ainda temos de quebra uma passagem por entidades cósmicas do Kingverso representadas de forma mais clara em sua saga A Torre Negra...


Ler It é como andar em uma montanha russa de emoções. Medo, alegria, felicidade, surpresa..., uma miríade de sensações que bagunçam nossa mente. São várias as situações que nos fazem lembrar de nós quando crianças e que são escritas de tal forma que é impossível não desejar um retorno ao passado pra reviver aqueles dias. 

It, A Coisa é um livro que versa muito além de terror. É um tratado sobre como a amizade é importante e de como fatos marcantes na infância  moldam nosso caráter futuro. Pode apostar seu couro nisso.

Obs.: lá pelo final do livro tem uma cena envolvendo Beverly que nem sei  direito o que pensar. Faz quase um mês que li o livro e ainda não cheguei a uma resolução quanto ao que vi. Entretanto, num primeiro momento achei desnecessário e de uma falta de tato muito grande do autor...

Boa leitura

It, a Coisa (It, 1986)
Páginas: 1103
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Comprar: A Coisa


[RESENHA - HQ] Do Inferno, de Alan Moore e Eddie Campbel


Nota: ★★

Quem já leu algum trabalho de Alan Moore, sabe que o autor, costumeiramente, faz uma crítica forte ao sistema vigente no qual se passa a obra em questão, tratando de fazer um paralelo sútil, porém marcante, com a nossa sociedade. Vemos isso, por exemplo, na Graphic Novel “V” de Vingança (mais sobre a obra AQUI ) – sim, aquele da máscara dos Anonymous. Em Do Inferno, Alan Moore vai um pouco mais além: não bastasse fazer uma leitura do zeitgeist, ele reconstrói uma parte sombria da história de Londres entregando sua versão dos fatos sobre os crimes de Whitechapel deflagrados pelo icônico e lendário Serial Killer, Jack, o Estripador


O cenário da nossa HQ é uma Inglaterra no fim da Era Vitoriana. Este período foi de uma crescente prosperidade para os habitantes da terra da rainha graças as moedas que entravam aos montes na nação devido a expansão do Império Britânico e pela consolidação da Revolução Industrial. Claro, que toda esta prosperidade não era uniforme: muitos trabalhadores das fábricas recebiam quantias ínfimas para viver e, muitos ainda – principalmente  mulheres – não encontravam serviço algum. É nesta Londres suja e poluída pelos resíduos das chaminés que chegamos até o bairro de Whitechapel.



Quando o corpo de Mary Nichols – a primeira vítima Jack, o Estripador  – foi descoberto no dia 6 de agosto de 1988, com cortes profundos na garganta e partes do abdômen removidos, uma onda de medo e especulações acometeu Londres: quem teria feito isto? Porquê? Foi um crime passional? Mas, poucos creiam que outras quatro corpos – Annie Chapman, Elizabeth Stride, Catherine Eddowges e Mary Jane Kelly – também seriam vítimas de tão brutal prática.

Muito se especulou sobre quem e o porquê dos crimes e várias teorias foram levantadas. Alan Moore, através de uma extensa pesquisa e juntando elementos da teoria do jornalista Stephen Knight, acrescenta alguns tons seus e, apesar da teoria do jornalista já ter sido desacreditada, você, acreditando ou não, dificilmente irá negar a genialidade do mago.

Do Inferno é uma história que não tem classificação livre. As cenas de sexo são explícitas e a violência aguda é mostrada sem maiores pudores. Os traços de Eddie Campbel, que seguem a tendência impressionista da época, podem parecer simples mas conseguem atenuar o teor trash da narrativa e ainda servem para salientar a sujeira e abstração da história resultando num trabalho incrível do desenhista que fez toda a história em preto e branco.


Tela "A Pulga" de William Blake
Desde o início sabemos quem é o assassino. Não há ESTE mistério para ser desvendado. Sendo assim, o autor confia no roteiro envolvente num misto de fantasia (temos até passagens de um vislumbre do futuro) e realidade para que o leitor não se entedie com a história. E, como estamos falando de Moore, espere um afresco brilhante. Seguindo a narrativa por alguns pontos de vista versando por diversas áreas do conhecimento como arquitetura, Maçonaria, metafísica, insanidade, história... ,o autor sugere um intricado enredo de mortes em série e terror para esconder um escândalo que abalaria as estruturas da casa real.

Muitos personagens históricos são mencionados ou aparecem na HQ: Aleister Crowley, Oscar Wild, William Blake, são exemplos de personagens reais que aportam por aqui. Meu destaque vai para uma cena envolvendo a concepção de Adolf Hitler e o eco que isso provocou no bairro de Witechapel.


Momento da concepção de Adolf Hitler

Além de uma narrativa fabulosa, o autor faz questão de colocar um apêndice com as bases para cada cena em questão que renderiam um livro à parte. É importante dar uma olhada a cada final de capítulo para situar-se melhor.  

Como disse no primeiro parágrafo, Moore insere em suas histórias uma forte crítica ao poder dominante. As maquinações das esferas de poder que refletem na vida de gente comum são mostradas de forma aguda pelo autor e isso nos remete a pergunta: e nós, o que podemos fazer? Será que seremos algum dia livres disso? Ou teremos de esperar por um Guy Fowks? 


Moore e Campbel fazem um retrato assertivo da Inglaterra  no final do século XIX nesta saga que discorre sobre Jack, o Estripador resultando em uma obra magnífica, soberba e genial. Não deixem de ler.



Boa leitura

Do Inferno (From Hell, 1989-1996)
Páginas: 592
Autor: Alan Moore e Eddie Campbel
Editora: Veneta
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