Nosso Eu por aí...



Toda vez que penso no meu passado, e creia-me, depois dos trinta pensa-se muito nisso, minhas memórias quase sempre me levam por aquelas pessoas que tanto fizeram parte da minha vida. Verdade seja dita: a grande maioria daqueles que tive a honra de conviver nem sei o que andam aprontando. Se casaram, realizaram seus sonhos, se são felizes, se ainda estão vivos...

Independente disso, é notável como somos moldados por aqueles que chamamos de amigos. Nossa forma de pensar, de agir, de viver, reparando ou não, é inadvertidamente influenciada por aqueles que deixaram um pouco deles em nós. Somos, ainda que em uma parte ínfima, reflexo daqueles que gostamos. Sendo assim, poderia até escrever algo sobre a sabedoria de escolher correto nossas companhias e todo este blá, blá, blá, mas não vou. Até porque, isto é muito relativo. Se creio piamente que nossa forma de navegar neste mundo é influenciada por nossos amigos, muitos do que foram nocivos a nós no passado, podem servir de exemplo hoje para que não esbarremos em algum iceberg por aí.

Desta forma, o que me resta? Bem, alguma coisa.

Em um texto que escrevi outro dia, um dos que mais me orgulho de tê-lo escrito por sinal (para ler clique AQUI) havia me comprometido a falar sobre amizade. 

E aqui vai.

Amigo é um cargo por vezes ingrato. Mesmo que tenham sido nosso verdadeiro pilar de sustentação durante um bom tempo de nossa curta existência, basta um leve deslize para que atiremos para outra galáxia tudo que bom e lindo que foi erigido outrora. Pecamos por exigir demais de nossos camaradas.

Sempre sonhamos, pedimos e desejamos que nossos mais fiéis e leais amigos sejam benevolentes conosco e entendam que por vezes erramos, afinal, somos humanos. Porém, nem sempre usamos esta métrica em favor do outro. Queremos uma perfeição quase religiosa e, meus caros, isto não existe. Somos falhos, por vezes chatos e falsos, inconsequentes, e um monte de adjetivos ruins que você pode encontrar no Google. Mesmo assim, esperamos a compreensão dos nossos verdadeiros amigos. Por que, então, agimos assim? 

Difícil responder!

Amizade é algo belo, forte e importante demais para nos atermos a coisas menores que o amigo em questão. Amigos são e sempre serão nosso elo mais forte com aquele tipo de amor que atravessa eras. Aquele tipo de amor que não espera muita coisa em troca. As vezes, uma boa conversa ou um sinal de apoio já são suficientes pra tornar mais fácil aquele caminho cheio de pedregulhos e espinhos.

Costumo dizer que meus amigos são vários, mas não por soberba e por me achar especial e sim por que vejo o mundo da amizade por uma ótica distinta. Não acho que o amigo precise estar sempre conosco nos momentos difíceis. Tem horas que o mais leal e fiel amigo não sabe e nem está preparado para nos ajudar. Mas, olhando para o lado, pode ser que exista uma outra pessoa que pode nos ajudar. Sempre penso em como as coisas se arranjam pra que cruzemos com pessoas fantásticas. Não porque nos completam ou por que não viveríamos sem ela. Nada disso. Mas porque, ainda assim, é escolha nossa querer ficar pertoE, as vezes, ser amigo é só partilhar momentos felizes mesmo. Quem sabe o milagre que uma tarde de sol em boa companhia pode operar num futuro incerto?

Sempre que olho aquelas pessoas que são amigos há tempos, fico feliz em saber que, provavelmente, muitas coisas de ruim aconteceram com eles, mas que isso não impediu que um visse no outro uma parte de si e seguiram adiante com a sombra do outro pairando nos momentos difíceis. As vezes fica aquela marca, tipo uma tatuagem, que doeu pra fazer mas quando olhamos, nossos olhos transbordam de emoção. Em suma, é só um estigma de que o outro não é perfeito. Assim como nós.


Agora, com meus trinta e poucos anos (há momentos que penso estar com 18, outras com 70, vá entender. Geminiano, né?) vejo como sou muito daquilo que absorvi dos meus pares. E quando este sentimento nostálgico me invade, torço para que eles, meus comparsas, também tenham absorvido algo bom deste que vos escreve. E que, onde quer que eles estejam, sendo aqui ou em outro plano, em outro onde, que recordem das melhores partes de mim que está com eles sendo um nosso Eu, que está por aí sendo maior que nós mesmos...        

Balanço de Leituras - até aqui #2



Longos dias e belas noites sai.

Meio ano já se passou e como de praxe, temos a impressão que janeiro foi ontem. Mas a percepção do tempo é enganosa. É só olhar para a miríade de coisas que fizemos e passamos que nota-se que apesar da celeridade do tempo, já acompanhamos muitos pores de sol. E, com relação as minhas leituras não foi diferente. Até o momento li 18 livros contabilizando 7659 páginas. Um livro a mais do que no mesmo período do ano passado.

E foi com base nas minhas leituras do ano anterior que estipulei a quantidade de livros que iria ler este ano. Algo em torno de 35 livros que é a minha meta literária do SKOOB – para saber quais livros clique AQUI. Talvez adicione um ou mais livros ou, talvez não consiga ler todos os escolhido, mas o saldo final não ficará muito diferente disto. E, pela primeira na história deste que vos escreve, estou conseguindo realizar minha meta.

Dos livros que li este ano, somente um, Mistérios Sombrios do Vaticano, foi uma leitura não muito dignificante. Todas as outras leituras foram muito boas. Tive o prazer de ler alguns livros fantásticos. Cito cinco que se destacaram: O Conde de Monte Cristo, História da Sua Vida e outros contos, Missoula, Eu Sou a Lenda (para ler o que achei sobre esses livros é só clicar no nome) e Do Inferno. Todos eles, apesar dos gêneros distintos, são ótimos e, possivelmente, estarão no meu Top 10 no final do ano – para ver o meu Top 10 do ano passado é só clicar AQUI.

E pra fechar estes apontamentos, atualmente estou desbravando Servidão Humana. Espero que até o fim do ano consiga manter esta pegada e alcance minha meta.

É isso aí pessoal, espero revê-los por aqui este ano. Fui.

Longos dias e belas noites.

[RESENHA] Eu Sou a Lenda, de Richard Matheson

Na tentativa de dar novos ares ao gênero, Richard Matheson consegue ir além debatendo a importância de nossos pares e a implicação disso para nossa espécie... 


Nota: ★★

Quando li o livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? de Philip K Dick (resenha AQUI) – e que serve de base para o filme cult Blade Runner – não pude deixar de pensar sobre o que realmente nos torna humanos. O que define nossa humanidade? Que fator intrínseco a nós é o que nos separa, psicologicamente, dos outros grandes primatas? Após a leitura de Eu Sou a Lenda, um questionamento de caráter filosófico e antropológico também vem à tona: ao se tornar um ser único, seria você o detentor da forma correta de se viver? Ou, seria você o monstro e todos os outros, semelhantes entre si, os mocinhos da parada? Usando uma epidemia de vampiros para debater assuntos bem reais como solidão, loucura e nosso lugar no mundo, Richard Matheson entrega um dos melhores livros do gênero.

Quem viu o filme Eu Sou a Lenda, com Will Smith e a brasileira Alice Braga no elenco, sabe qual é o plot do livro. Uma epidemia afeta a população mundial transformando as pessoas em vampiros. Ao que tudo indica, somente uma pessoa não é afetada pelo vírus sendo imune a ele: Robert Neville. Acompanhamos a vida de Neville enquanto sobrevive em meio ao caos de vampiros que querem findar com sua vida.

Apesar da mesma premissa, livro e filme tem condução e desdobramentos diferentes – e aqui nesta resenha, discutiremos somente a obra impressa.

Antes de ser um livro pautado pelo medo causado pelos vampiros, o livro é um belo retrato de um homem envolto com a solidão. É difícil imaginar como fica a mente humana privada do simples, porém importante, convívio com seus semelhantes. Não para Matheson. O autor consegue criar um retrato claustrofóbico e angustiante de uma vida solitária onde nosso personagem vê tudo que foi um dia apenas como memória. Sua vida antiga jaz em algum lugar do passado junto com a memória de sua família. É interessante e assustador perceber como a loucura parece querer se apoderar de Neville e ele luta para não deixar se entregar. E, talvez seu maior trunfo seja a ciência.

Richard Matheson, que foi um dos grande escritores do século passado, um dos deuses do terror, concebeu obras fantásticas, mesmo que pouco conhecidas como o caso do excelente Hell House, A Casa Infernal (resenha AQUI). Ainda que com viés sobrenatural, a ciência faz parte da narrativa e isso imprimi um detalhismo e um sentido de realidade maior ainda.

Sendo a última esperança de redenção na Terra, Neville luta com a solidão se protegendo dentro de paredes reforçadas de seres que parecem normais não fosse o fato de terem repulsa a luz, alho e se alimentarem de sangue. Em meio a este caos, o acompanhamos em sua busca de entender e quem sabe, criar uma cura para este mal. E aí está uma sacada genial do autor.

Apesar de ser um tema bem comum desde Drácula de Bram Stoker (resenha AQUI), Richard Matherson vai um pouco além fazendo um estudo mitológico da raiz vampiresca e na sua versão, há razões para a repulsa a crucifixos, bíblias, alho e tudo mais. Em sua exploração antropológica, o autor faz um paralelo destes e outros tantos mecanismos que apavoram os chupadores de sangue que foi inovador e ajudou a popularizar os Vampiros.

Já não bastasse tudo isso, o autor ainda faz questão de deixar uma pergunta que ecoa de forma muito forte: o que define a normalidade? Na parte final do livro, vemos como os valores das coisas mudaram e como a definição da nossa realidade é definida, como bem  definiu Yuval Harari no perfeito Sapiens, Uma Breve História da Humanidade (mais sobre o livro AQUI), por uma "verdade intersubjetiva compartilhada". A crença em algo comum é o que define qual é o lado negro da força. Foi isso que possibilitou que nossos antepassados prevalecessem sobre os outros primatas tornando o homo sapiens a espécie dominante relegando as outras espécies, primeiro os guetos, posteriormente a extinção. E é isso que nos define como pessoa, Estado e espécie. Chegando no final do livro, é emocionante ver esta relação criando um link direto com os outras espécies do genero homo. Não à toa o livro tem este nome - mas já aviso que é bem diferente do filme.

Terror, medo, solidão, os limites psicológicos testados, vampiros, inovação, fim da humanidade e uma boa dose de reflexão antropo-filosófica, fazem de Eu Sou a Lenda um dos melhores livros do gênero e merecidamente colocam o autor no rol dos grandes autores de seu tempo.     


Boa leitura

O Eu Sou a Lenda (I Am Legend, 1954)
Páginas: 244
Autor: H. Richard Matheson
Editora: Novo Século
Comprar: AMAZON  

[RESENHA] O Silêncio das Montanhas, de Khaled Hosseini

Antes de ser um livro sobre a separação ainda na infância de dois irmão, O Silêncio das Montanhas é um retrato emocionalmente triste e inevitável das angústias que todas as relações humanas acarretam...


Nota: ★★

Algumas histórias tem o dom de nos fazer ter esperanças mesmo que o mundo esteja desabando ao nosso redor. Outras tem o dom de nos divertir e ver que a vida pode ser levada de forma leve. Mas algumas parecem que foram feitas com o intuito de abrir nossos olhos para uma realidade onde nem sempre tudo é possível e mesmo a felicidade, quando chega, não é tão colorida e vem mesclada com um tempero agridoce. É o caso do ótimo “O Silêncio das Montanhas” de Khaled Hosseini. Chegar ao ponto final do livro e não sentir um aperto no peito, quase como uma facada, é como caminhar no deserto e não ter sede. Só é possível se você tem alguma parte do cérebro desligada que te impossibilite de se emocionar, de sentir empatia. De ver que o mundo, ainda que cheio de possibilidades maravilhosas, pode ser um lugar cruel e que a nossa vida nem sempre é guiada por aquilo queremos.

Quando lançou o ótimo "O Caçador de Pipas" no ano de 2003, Hosseini conseguiu emocionar milhares de leitores com sua escrita que penetra o fundo da alma humana. Não há como negar que ele é um ótimo contador de histórias. Em O Silêncio das Montanhas, o autor aplica uma narrativa um pouco distinta do que estamos habituados em suas obras, mas não esconde seu verdadeiro trunfo como escritor: nos emocionar.

No livro, acompanhamos a vida de Pari e Abdullah, duas crianças que tem um laço mais forte que o fraternal que as une. É como se pertencessem a faces diferentes da mesma moeda. Impossível dissociar um do outro. Porém, a vida nem sempre funciona como a gente quer e por motivos extremos, Pari e Abdullah são separados. Aí, temos a saga de duas almas que seguirão suas vidas com oceanos de distância mas o reflexo delas, uma na outra, sempre será uma presença constante.

A narrativa fragmentada que  serve para mostrar diversos pontos de vista de uma história maior, pode afastar alguns leitores, haja vista a dificuldade de num primeiro momento, relacionar-se sentimentalmente com o enredo. Porém, se você se enquadrar nesse grupo, faça um esforço e dê uma chance a este livro. Mesmo parecendo uma coleção de contos que se entrelaçam, a narrativa é coesa e abre espaço para um alcance maior e serve o objetivo do autor que é nos mostrar as intrincadas relações da vida,  

Apesar de ter como foco principal a vida de Pari e Abdullah, o livro é uma viagem por gerações e personagens onde atitudes tomadas por um, reflete-se de forma incomensurável na vida do outro. É uma gama gigante de personagens, vilas e países que de forma direta ou indireta aglutinam-se para rebater na vida de Pari e Abdullah. Claro, em se tratando de Kaled Housseini, a guerra não poderia ficar de fora.

É impossível fazer um panorama do Afeganistão retratando o modo de vida e de pensar de seu povo sem mencionar este mal que independente dos avanços tecnológicos e humanistas que nossa espécie tenha alcançado, consegue parecer etéreo ao homo sapiens. Mas de forma sábia o autor não foca no conflito em si. Ele prefere focar-se na vida de gente comum que não pediu pra que a guerra acontecesse mas que vê sua vida jogada num carrossel de acontecimentos quase inverossímeis.

Uma parte muito reflexiva da narrativa é o modo que o autor descreve como os afegãos que permaneceram no país no decorrer do conflito enxergam aqueles que se evadiram. É como se não fossem dignos de chamar aquela terra de sua, e independentemente de estarem corretos ou não, quem pode censurá-los? Ainda há uma crítica leve, porém marcante, àqueles nativos que decidiram lucrar em cima das pessoas e organizações que se dispuseram a ajudar na amenização do sofrimento do povo. São momentos que valem a reflexão sobre nós como seres sociais, éticos e religiosos. E vale ressaltar que o autor faz isso não forma didática mostrando onde e como devemos pensar. Isso é feito de forma orgânica e de mansinho. Quando você se dá conta já está pensando sobre você como um ser social e em suas atitudes e se questionando se realmente tem sido alguém digno de nota.

Apesar de toda tristeza que permeia a obra e um final que parece caminhar para um fim melancólico e injusto, Kaled Housseini faz questão de deixar uma chama acesa de esperança na tentativa de mostrar que por mais infeliz, trágica e injusta que seja a vida, ainda é possível vislumbrar coisas boas para um futuro que mesmo assustador, pode ser incrível, belo e cheio de surpresas boas.  


Boa leitura

O Silêncio das Montanhas (And the Mountains Echoed , 2013)
Páginas: 350
Autor: H. Khaled Hosseini
Editora: Globo Livros
Comprar: AMAZON

[RESENHA] Mistérios Sombrios do Vaticano, de H. Paul Jeffers

Em sua tentativa de desnudar toda uma história de escândalos e segredos do Vaticano, o autor acaba entregando verdades há muito conhecidas e exagera na quantidade de informações que carecem de fonte.



Nota: ★★


Não é nenhum assombro que uma organização que conta com mais de século de existência carregue dentro de seu amago alguns segredos. Sendo esta organização de cunho religioso, as coisas ficam mais agudas ainda. No livro “Os Mistérios Sombrios do Vaticano”, o autor H. Paul Jeffers, jornalista e autor de vários livros com esta mesma temática, tenta esmiuçar muitos dos segredos e histórias apócrifas da Santa Sé. Indo desde Pedro, que seria o primeiro papa, até Bento XVI. Apesar de entregar um livro relativamente interessante, a maioria dos relatos aqui apresentados não são tão secretos assim e o autor peca muito em não citar fontes.

Toda vez que surge um rumor de segredo envolvendo o Vaticano, meio que por osmose nos interessamos e ficamos ansiosos por saber qual será peripécia que os discípulos de Pedro querem esconder. Isso ficou mais acentuado depois do estrondoso sucesso do livro O Código Da Vinci e os supostos segredos que o livro revelou. Apesar de não conter informações muito confiáveis, Dan Brown conseguiu atiçar a curiosidade das pessoas. E, quando nos deparamos com um livro que promete revelar muitos segredos do Vaticano logo nos interessamos.

Em suas 276 páginas, o livro abrange uma quantidade ampla de assuntos pouco ou mal explicados que o Vaticano estaria envolvido. Templários, o envolvimento com a Máfia Italiana, corrupção no Banco do Vaticano, a vida sexual agitada de muitos pontífices, enfim, quase tudo que já deixou os fiéis com sua fé abalado ou, que os levou a enxergar, ao menos por um momento o catolicismo com outros olhos, foi tema do livro que tinha tudo pra ser um manuscrito relevante. Tinha!

Apesar de ter escrito outros tantos livros, ser jornalista e saber a importância de uma fonte, o autor não faz muita questão de usá-las. Talvez um terço ou mais do livro são citações de pessoas que não fazemos a menor ideia de quem são. Há muita informação que teria uma relevância cabal se fosse divulgado o autor da mesma. Mas, infelizmente o autor esquece de referenciar.

Mesmo com este contratempo, o livro é bem interessante. A escrita do autor é fluída o que não cansa permitindo chegar rapidamente ao fim. Longe de ser uma referência sobre o tema, o livro ao menos serve para nortear alguém que queira entrar mais profundamente nesta gama de mistérios chamado Vaticano. Leia, mas não tome tudo como verdade, a menos que você não tenha problemas com informações que não possam ser verificadas.

Boa leitura. 


Mistérios Sombrios do Vaticano (Dark Mysteries of the Vatican, 2010)
Páginas: 276
Autor: H. Paul Jeffers
Editora: Jardim dos Livros
Comprar:  AMAZON

INDICAÇÕES DA SEMANA #3



Longos dias e belas noites!

Hoje, nas Indicações da Semana, não tem nenhuma produção mais ou menos. Todos os quatro longas que lhe serão apresentados, além de terem uma acuidade técnica, tem em seu enredo um subtexto que vale à pena reflexão. Desde o homem que sonha com uma catástrofe e se prepara para tal à exemplo de Noé; a invasão alienígena que explora mais nossa linguagem e a inevitabilidade das coisas; uma metáfora sobre a dor da perca num retrato belíssimo; e um ensaio sobre a vida através de máscaras.

Bem, vamos lá?    


O ABRIGO

O que você faria se tivesse presságios de uma catástrofe que está por vir, mas que ninguém acreditaria se você contasse? É isso que acontece no filme O Abrigo. Num paralelo moderno do mito de Noé, o diretor Jeff Nichols nos apresenta um filme com um ritmo lento porém com um clima de suspense no ar que não deixa a narrativa cansativa.

Destrinchando a vida de Curtis LaForche (Michael Shannon) que começa a creditar nas visões apocalípticas e isso o leva a perder o emprego e a confiança da família, já que sua mãe tem esquizofrenia e para todos suas visões são sinais da doença.

O filme é um retrato da situação de gente comum ante fatos extraordinários. Sempre há um nosso “Eu” que finca os pés no chão da realidade plausível e provável negando-se a ler os sinais que a vida dá – e isso não é restrito a fatos sobrenaturais. Além de Shannon ótimo no papel, ainda temos uma Jessica Chastain no papel da esposa de Curtis, Samantha LaForche, com sua eficiência habitual. Vale o ingresso.

A CHEGADA

 Este com certeza é um dos melhores filmes de ficção dos últimos anos. A história narra a chegada de seres alienígenas na Terra e a tentativa de Louise Banks (Amy Adams), linguista, em descobrir o real motivo de sua vinda pra cá.


Apesar de ser um tema batido, o longa foge do roteiro fácil de explosões e abduções. Há um olhar mais intimista e menos catastrófico. Baseado no conto A História de Sua Vida de Ted Chiang, o livro aborda questões como linguagem, teorias cognitivas e um conceito diferente sobre livre arbítrio.

Dirigido pelo ótimo Dennis Villenueve, o filme conta com uma fotografia vistosa, um clima de tensão intermitente e um roteiro eficiente. Apesar de num primeiro momento parecer uma narrativa grandiloquente, o filme é mais um retrato intimista da vida de Louise do que qualquer outra coisa. E por falar em Louise, que interpretação incrível Amy Adams. Ela está ótima no papel sendo o grande fio condutor da narrativa. Surpreendentemente não foi indicada pela academia como melhor atriz.

Apesar de merecer, não vou me delongar muito na história do filme pois já fiz uma resenha do conto, para ler clique AQUI , e ambos tem uma estrutura muito semelhante. Não deixem de ver.

SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA NOITE

Adaptado do livro homônimo de Patrick Ness, o filme é uma alegoria muito profunda sobre nossos sentimentos paradoxais e sobre superação. Connor O’Maley (Lewis MacDowgall) é um garoto que passa por um momento difícil: sofre bullying na escola, sua mãe está sucumbindo a uma doença terrível e pra piorar, começa a ter um sonho que lhe apavora.

É neste ponto que surge o Monstro. Uma figura que pode ser ou não real e que aparece para Connor para contar três histórias e ouvir uma quarta. O filme é emocionante, triste e belo. Cheio de lições para levarmos pra vida toda.

Sem delongar muito pois já resenhei o livro (resenha AQUI), e as histórias são bem parecidas com um acréscimo no final do filme que torna tudo mais lúdico ainda. Assista com um lenço para enxugar as lágrimas. Vai precisar. Já disponível na Netflix.

DE OLHOS BEM FECHADOS

Já está quase virando regra filme do Stanley Kubrick aqui na seção. Neste, o diretor aborda a vida das pessoas atrás de máscaras. Estrelado pelo na época casal 20, Tom Cruise e Nicole Kidman, o filme  começa mostrando uma vida feliz de ambos até que possíveis aventuras sexuais põe em cheque a felicidade deles.

Cheio de alegorias e um flerte com teorias conspiratórias, o filme ficou mais marcado pela cena do ritual ocultista do que pelo seu conteúdo em si. E focar somente nisto é reduzir em muito esta grande obra. Sem muitas delongas pois já tem uma análise do filme aqui no broguinho (para ler clique AQUI ), o filme te faz pensar sobre fidelidade, o real momento onde há traição conjugal e a vida das aparências. Mesmo longe de ser o melhor trabalho de Kubrick, é um filme fantástico que vale a pena ser visto.

É isso pessoal, essas são as indicações da semana. Até a próxima.
Longos dias e belas noites.   

NÓS...


Moço, quem disse que você é isso:
Riqueza, alegria, ostentação e paz?
Sério que é só?
O que te define?
Tua casa, teus posts teu anel?
É isso que tu e´s?

Não sou, não fui. Estou sendo.
Um processo eterno de construção.

Nada do que tens te representa.
Apenas apresenta teus gostos.
Moço, tu podes mais.

Sonhe, brigue, chore...

Abrace tua fé ou a falta dela...

Moça, é essa tua fé:
Tua casa, teus amantes e tuas curtidas?
O Insta teu templo, teu deus e tua mãe?
Amores inócuos tua arma?
A roupa cara teu único manto?
Espanto, isso me causa!

Não és minha, não és dele. És de tu mesma.
Tua alma é tua dona, dê mais a ela...

Teu homem não te define!
Tua casa não te define!
Tua carne não te define!*

Ame, beije, se desespere
Não aceite menos que isso.

Moço, Moça, Eu, Nós...
O que nos define?
A réplica do que está aí,
No topo do Twitter, do snap?
Na etiqueta luxuosa?

Ver, ousar, recriar, reinventar...
Sentir a brisa do amor ao desespero
Com tempero de quem renasce a todo momento.

Somos nosso próprio lar,
Morada do sagrado
Amparado naquilo de melhor e mais forte que temos...

Nós...


*trecho extraído da música "Triste, louca ou má". 

[RESENHA] Sete Minutos Depois da Meia Noite, de Patrick Ness

Um livro aparentemente superficial, mas que carrega uma profundidade imensa e que nos faz refletir sobre nossas dualidades, imperfeições e medos além de render algumas lágrimas.

Foto site: saidaminhalente.com 

Nota: ★★★★★

A eminência da perca de um ente querido é algo avassalador. Imaginar que, daqui a pouco, aquele ser que tanta importância tem na nossa vida pode não estar mais aqui é algo difícil de equacionar. Essa situação soa mais desesperadora ainda quando quem passa por isso é uma criança: até que ponto ela consegue suportar? O que será daqui em diante? Como equilibrar a miríade de sentimentos possivelmente conflitantes? Como não sucumbir junto e se deixar levar por esse rio de sofrimento e angústia? Mostrando isso, a perca e a dor pelos olhos de uma criança, Patrick Ness consegue nos brindar com um livro emocionante e belíssimo.

Logo nas primeiras páginas do livro, você já nota que o tema abordado é pesado. Connor O’Maley, um garoto que vive sozinho com sua mãe, Lilly, que está passando por uma fase difícil pois está muito doente e talvez não consiga resistir. Seu pai mora em outro país e sua avó não é das pessoas mais fáceis de conviver. De cara, o autor já nos presenteia com toda essa gama de informações para nos inserir na atmosfera que cerca Connor. Somado a tudo isso, Connor ainda é vítima de bullying  na escola e vem sofrendo, já algum tempo, com um pesadelo que lhe assusta e parece lhe consumir.

É impossível não criar uma ligação automática com Connor. O momento pelo qual ele está passando nos toca profundamente. Ter de equacionar tudo isso com a iminência da perca da mãe requer um espírito de grandeza muito grande para não sucumbir, principalmente se tratando de uma criança. Toda a fleuma aparente de nosso pequenino, esconde um turbilhão de sentimentos fortes e reprimidos, afinal, como reage ama criança com a possível morte da mãe? É neste ponto que surge o “Monstro”.

Aqui as coisas começam a tomar um rumo que, apesar de flertar com o fantástico finca os pés em uma bela alegoria. O Monstro que surge para Connor, é uma personificação da árvore de Teixo que ele avista de sua janela. Apesar da opulência ele não assusta o nosso garoto. Surgindo sempre (QUASE SEMPRE) à meia noite e sete, ele vem pra contar três histórias e ouvir uma quarta.

As histórias narradas pelo Monstro são uma fonte magnifica de reflexão. Apesar de apresentarem uma moral duvidosa aos olhos de Connor, os relatos transmitidos pelo monstro visam mostrar que nem sempre as pessoas são uma coisa só. Como disse Paulo Coelho, "bem e mal são faces diferentes da mesma moeda". Tanto a rainha bruxa, o pároco santo e o garoto invisível guardam lições profundas que tem um propósito bem específico na vida de Connor. Todas as histórias contadas pelo monstro são uma forma de inserir na mente dele que existe sempre uma dualidade na vida. Nem tudo é uma estrada de uma única via, preto no branco. O fato de termos feito algo positivo não implica necessariamente que sejamos bons e a máxima se aplica ao inverso.

Tendo contado sua história, o Montro exige que Connor lhe conte a quarta. Aí, notamos o porquê das histórias do monstro e, principalmente, como é complicado viver em situações extremas. Os sentimentos conflitantes e paradoxais de Connor são um retrato daquilo que nós, seres humanos, somos: seres totalmente complicados. E esta verdade, a verdade de Connor, mostra o quanto isso nos torna frágeis e belos.

O final do livro é algo de embargar a voz de qualquer um. É um sentimento que consegue ser compartilhado mesmo por aqueles que não tenham passado pelo mesmo que nosso garoto. É um momento forte, mas que foi passado ao papel de forma muito bela pelo autor que conseguiu mesclar algo profundo e extremamente triste com uma singeleza magnifica. E toda essa acurácia narrativa não se deve somente a Ness.

A ideia do livro foi originalmente concebida por Siobhan Dowd, porém ela acabou sucumbindo de câncer aos 47 anos antes de terminar a obra. Apesar da recusa inicial, Ness acabou aceitando o desafio e entregou um trabalho que deixaria Dowd orgulhosa. Vale citar também que o livro já se tornou filme e a adaptação conseguiu transpor para as telas toda a carga emotiva do livro com um toque visual incrível. Tem na Netflix e vale à pena conferir.

Tendo como foco a dor da perda, Sete Minutos Depois da Meia Noite é um retrato das nossas contradições que nos impelem por caminhos que nem sempre entendemos, mas que cada qual à sua maneira, salientam aquilo que temos de mais imperfeitos: somos humanos.   

Boa leitura.

Sete Minutos Depois da Meia-noite (A Monster Calls, 2011)
Páginas: 160
Autor: Patrick Ness
Editora: Novo Conceito
Comprar: AMAZON

INDICAÇÕES DA SEMANA... #2



Hoje nas indicações da semana temos um rol bem variado de filmes: uma dramédia adolescente; uma animação da DC; um filme sobre o mercado de investimentos o jornalismo e o compromisso com a verdade; e um documentário sobre um serial killer soviético. 


QUASE 18

Nadine (Hailee Steinfeld), é uma adolescente que apesar de sua personalidade irritante, consegue cativar o espectador. Sua vida torna-se deveras solitária quando sua melhor e única amiga começa a sair com seu irmão. O filme é bem interessante. Apesar de muitos momentos clichês (o adolescente que não se encaixa em lugar nenhum e é revoltado com o universo, a busca por um amor em outros lugares quando está ao alcance das mãos...), a diretora Kelly Fremon  Craig entrega um trabalho engraçado que consegue dialogar com o público jovem (presente!) sem ter de vergar para os besteiróis americanos. E ainda temos uma interpretação hilária de Woody Harrelson na pele de um professor nada convencional.

JOGO DO DINHEIRO

Atitudes inescrupulosas de investidores do mercado de ações já serviram como enredo para muitas produções Hollywoodianas. Em Jogo Por Dinheiro, segundo longa de Jodie Foster como diretora, ele serve apenas como pano de fundo para um assunto tão ou mais relevante: jornalismo e o compromisso com a buscar da verdade.  

Lee Gates (George Clooney) apresenta o programa “Money Monster”, um programa de dicas do mercado financeiro onde o apresentador, entre uma dica e outra, faz performances megalomaníacas dignas de popstars. Um dia, Kyle Budwell (Jack O’Connell), após ter seguido dicas do apresentar e perder 40 mil dólares, invade o programa, faz Gates refém e exige explicações para saber o porque desta perca. Apesar de se tratar do mercado de ações, o filme é sobre jornalismo.

Há sempre aquela dúvida sobre o quanto os programas informativos são verdadeiros. Fica sempre uma pulga atrás da orelha:  a notícia é realmente verdadeira ou só existe busca por mais audiência? No filme, o debate é levado ao extremo. Guiado pela produtora Patty Fenn (Julia Roberts), Gates torna o sequestro que está sendo transmitindo ao vivo em um show na busca de saber realmente o que ocorreu com o dinheiro de Kyle e tantos outros acionistas.

Com ótimas interpretações, um clima tenso e um sentido de urgência, o longa consegue prender atenção e te faz refletir sobre o jornalismo e a moral – ou falta de moral – por trás das telas. 

JOVENS TITANS: o contrato de Judas

Aaaa, DC!!! Toda vez – ou quase sempre – que vejo uma animação da DC Comics, me pergunto porque não repetem a mesma qualidade em seus filmes. Sim, ok, não seria tão simples assim. Um longa, segundo os “intendidos” é algo muito menos complexo do que uma animação, entretanto, os roteiristas dos filmes deveriam consultar os roteiristas das animações. Mas, enfim...

O Contrato de Judas, mostra os Jovens Titans comandados pela Estelar  que se vê insegura no posto. Robin, BezouroAxul, Ravena, Mutano e Terra, vivem de combater o crime e os embates da vida de adolescente. Até que surge um super vilão e uma traição pra abalar as estruturas da equipe.

O roteiro simples é muito eficiente. Os diretores se preocupam em estabelecer uma interação entre os personagens. Grande parte da animação foca na vivência dos jovens além de sua vida como heróis: suas dificuldades, alegrias medos. Isso implica em um sentimento empático por parte dos espectadores que quando há o momento do confronto com o traidor (Judas), é impossível passar incólume a isso. 

Seria muito bom  ver este mesmo talento nos filmes de Batman e Cia.

ANDREI CHIKATILO, O AÇOUGUEIRO DE ROSTOV

Agora vamos falar sobre um documentário que foi ao ar pelo canal  Byograph Channel. Apresento-vos o Açougueiro de Rastov. Durante 12 anos (de 1978 a1990) a região de Rostov foi assombrada pelo assassino em série Andrei Romanovich Chikatilo que tinha como características esquartejar e eventualmente consumir parte dos cadáveres de suas vítimas. Ao todo, Chikatilo assumiu a responsabilidade na morte de 53 pessoas.

Assassinos em série é um tema que, a despeito dos horrores, nos fascinam. A ideia de um sociopata que pode nesse momento ser alguém muito próximo a nós e nem notarmos é algo que nos faz refletir. E, mesmo sabendo que serial killer pode ser qualquer, é impressionante o quanto saber quem é pode nos chocar.

A trajetória de Chikatilo é daquelas biografias dignas de filmes. Infância difícil - seus pais e irmãos maiores passaram pelo Holocausto Ucraniano (Holomodor) e com problemas sexuais, Andrei foi alguém dividido entre família, estudos, fidelidade ao partido e matar. Este último sendo muito bem sucedido em partes graças a polícia russa.

Devido a ideologia soviética, uma pessoa normal não poderia cometer tais crimes – isso era coisa do ocidente capitalista – sendo assim, não poderia uma pessoa só realizar estes crimes. Os crimes eram feitos por várias pessoas que não tinham ligação entre si, ou seja, com base em sua ideologia estúpida, o governo soviético possibilitou uma "carreira" muito extensa a ChiKatilo.

Andrei Chikatilo, O Açougueiro de Rostov, além de descrever de forma bem informativa a vida do serial killer, o documentário também é um retrato de URSS atrasada, com uma ideologia cega 

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Bom, é isso aí pessoal. Espero que apreciem as indicações. Até a próxima...