Meus cachorros ensinando-me...
...a seguir adiante

Talvez, a lição mais importante que tive com minha vivência, salientada por Junior, Einstein, João Bolt e Xicó, é que independente do que nos aconteça em vida - ou após ela - é importante seguir adiante. Por nós, pelos nossos pares e por aqueles que já se foram.


Quando tinha onze anos, nós tínhamos um cachorro vira-lata que atendia pela alcunha de Junior. Não me culpem. Quem batizou ele não fui eu pois não tinha voz ativa no seio familiar naquela época (mais ou menos como acontece hoje). Junior era um típico vira-lata: pelo curto de cor branca com manchas marrons espalhadas pelo corpo. De porte médio, era um cachorro que não nos dava trabalho. Normalmente, só latia nos horários de almoço e janta, quando sabia que dali a pouco, iria receber suas refeições. Quando era "criança", acostumei o danado a pular em mim e nas outras pessoas, hábito este que manteve durante o resto da sua vida.


Um belo dia, estava chegando em casa da escola. Costumava desviar da rampa que dava acesso a calçada de casa porque Junior ficava ali, só no aguardo de alguém chegar pra se jogar em cima do pobre transeunte. Neste dia, observei que o danado não estava lá. Perguntei pra minha mãe onde ele estava e ela me informou que ele arrebentou a corrente e fugiu. Não fiquei muito preocupado. O danado vivia fazendo isso e quando o horário da sua "'janta" chegava, ele vinha todo faceiro balançando o rabo e latindo, pedindo sua refeição. Mas naquele dia, não. Quando deu por volta das 22 horas, insisti com minha mãe para sairmos e procurarmos. Andamos nos quarteirões próximos e não achamos nada. Fui dormir triste, mas com esperanças de que o cachorro voltasse.

No outro dia por volta das seis da tarde, como Junior não voltava, fui de novo a sua procura. E no outro também. E nada de achar o cachorro. Minha mãe vendo que eu estava meio abalado veio pra mim e disse: 

"Moleque, é bem provável que o Junior tenha sido atropelado."

Aquilo gelou meu coração. Senti o choro subindo pela garganta. Me controlei. "Homens" de onze anos não chorão. 

Já havia me deparado antes com a morte. Eu era muito pequeno, tinha uns cinco, seis anos e um amigo da minha irmã morrera dormindo. Foi se deitar pra levantar cedo no outro dia pra ir à escola e nunca mais despertou. Fui no velório mas nem entendi direito as coisas. Sabia que não veríamos mais ele, mas minha mente juvenil não conseguia processar o real valor daquilo. Agora, seis anos depois, eu sabia muito bem o que significava quando alguém morria.

"Tudo bem" - falei pra minha mãe fingindo um ar de indiferença, mas estava apavorado com a possibilidade de Junior ter sido atropelado e morrido.

No dia seguinte, como o cachorro não veio, esperei ficar bem escuro, peguei uma vela, fui para o fundo da casa (quem conhece a vila C, sabe que não é bem o fundo da casa, é mais a lateral). Acendi a vela e, pela primeira vez na vida, fora de alguma igreja, tentei falar com Deus. Não lembro as palavras exatas, mas foi algo mais ou menos assim.

"Deus, sei que não costumo falar com Você com frequência e nem sou um bom cristão. Não gosto de ir à igreja e ontem mesmo joguei pó de giz na bolsa da professora. Mas o Junior é um cachorro bom. Nunca mordeu ninguém. Só gosta de pular nas pessoas pra brincar. Se o Senhor O trouxer de volta, eu prometo que vou na missa em todos os domingos e ajudo minha mãe com a louça. Bem, é isso. Amém"

Apaguei a vela e fui dormir. No outro dia pela manhã quando acordei, nem fui lavar o rosto ou escovar os dentes. Fui direto ver se Junior estava lá. Não estava. Só uma casinha de madeira e elcatex vazia e uma corrente sem ninguém nela solta no chão. Pensei que: ou Deus estava muito ocupado com outras coisas importantes e não pode atender minha solicitação; ou Ele não acreditou que eu iria realmente cumprir o que prometi. O certo é que nunca mais vi o cachorro. Torci para que minha mãe estivesse errada e que ao invés de atropelado, ele tivesse encontrado outra família onde estava sendo bem tratado e se sentia feliz. Jurei que nunca mais teria cachorro na vida. A gente se apega ao danado e bum, de repente ele some deixando um vazio aqui dentro.

Conforme o tempo foi passando, minhas lembranças sobre Junior foram ficando cada vez mais espaçadas. Eu sei que é estranho admitir mas quase nem lembro do cachorro. Fazia tempo que ele não permeava meus pensamentos. 

Até hoje.

Fui pra cama sem um pingo de sono. Já era umas três da matina. Achei que não ia conseguir dormir de jeito nenhum. Enquanto deixava minha mente vagando por um monte de coisas, adormeci mais rápido do que imaginava. 

E sonhei.

Estava dormindo e acordei quando ouvi um latido. Estava na minha cama mas não na casa que eu vivo agora. Era a casa onde passei grande parte da minha infância.

Au Au Au...

O latido continuava e eu sabia de quem era. Já tinha ouvido muito aquele som durante um bom tempo da minha vida. Fui lá fora e lá estava ele.

"Junior!!!. Por onde você andou cachorro. Te procurei um monte quando você sumiu. Onde você estava?"

Me agachei e dei um abraço em Junior enquanto ele lambia meu rosto, todo faceiro.

"Nossa cara, senti tanto sua falta !"

"Fica tranquilo meu chapa. Está tudo certo com o vira aqui".

(o sonho tem dessas coisas. o cachorro falava comigo, eu entendia tudo e achava normal)

"Mas me conta, o que aconteceu com você?"

"Então meu chapa, eu vi uma cachorra passando e forcei a corrente que arrebentou e fui atrás dela. Corri umas três, quatro ruas atrás dela. Quando fui atravessar a rua (se sabe né, nunca olhei para os dois lados antes de atravessar), escutei uma buzina. Depois algo bateu em mim e tudo ficou escuro. Acordei num lugar lindo meu chapa. Era um gramado enorme e o cheiro era limpo, cara. Não é que nem aqui onde você inala um pouco de diesel e gasolina a cada respirada. O cheiro, cara, é uma mistura de perfume de rosas com cheiro de terra molhada. Uma maravilha. Depois de um tempo andando pra lá e pra cá sentindo aquele cheiro, ouvi um monte de latidos. Cara, tinha um monte de cachorro correndo. Me juntei a eles e corremos, cara. Corremos pra lá e pra cá. E é assim que vivemos: Corremos, brincamos, tomamos água e quando estamos com fome, uma tigela de comida aparece bem na nossa frente."

"Junior, você está no paraíso?"

"Cara, não se preocupe em dar nome às coisas. Só saiba que estou num lugar bom com outros cachorros legais. E por falar em cachorros legais, olha quem eu encontrei por lá."

Junior apontou pra rua e vindo todo faceiro, com a língua pra fora estava meu segundo cachorro, Einstein.

Einstein foi um cachorro (outro dessa ótima raça, vira latas) que viveu com a gente por doze anos (este foi eu que dei o nome, haha). Quando pegamos ele, já devia ter una três, quatro anos. Ano passado morreu de velhice. E agora vinha na minha direção com aquele pelo cinza grande e com um pouco de "cabelo" caído nos olhos.

"Oi Ricardo. Quanto tempo hein? Não vou mentir não, mas, no início até que eu sentia saudades. Depois, com todos aqueles cachorros pra eu brincar, e sem esse calor que faz aqui, me sinto mais feliz agora.

"Que bom seu danado. Fiquei triste quando você se foi"

"Nem fique. Lá é muito bom. Sem falar na comida que é boa e tem um monte de cachorras pra gente, bom, você sabe. Junior, o pessoal pediu pra te chamar. Temos que seguir adiante. Tchau Ricardo”.

Einstein se despediu de mim com uma lambida no rosto e correu junto de um monte de outros cachorros.

“Então, meu chapa, é isso aí. Tenho que seguir adiante”.

“O Junior, tenho que te pedir desculpas. Nem lembro com muita frequência de você. Eu devia ficar triste às vezes, sabe, por você não estar mais aqui.”

“Não seja idiota meu chapa. Se for pra lembrar de mim com tristeza, é melhor que não o faça. Só pense nos momentos bons e fique feliz por mim pois, segui adiante. Agora, chega desse papo. Tenho que me juntar ao grupo. Tchau meu chapa.”

“Junior, vamos nos ver de novo?”

“Cara, você faz perguntas demais”.

Junior saiu correndo e se juntou a Einstein e aos outros cachorros. Corriam em uma rua reta, toda arborizada com os galhos das árvores em lados opostos das vias atravessando a rua e se encontrando formando um túnel. Uma luz branca forte surgiu no horizonte. Os cães entraram nela e se foram.

Não sei se com vocês acontece isso mas, quando eu sonho, parece que acordo logo após o sonho acabar. Não sei se durmo muito depois do sonho, o fato é que meu sono finda-se junto com o sonho. Pelo menos é o que parece.

Sentei na cama e forcei-me a pensar no sonho pra que ele não me escapasse da mente. Fui tomar um copo de água pensando em como as coisas são. Em um momento você está feliz com alguém (incluso cachorros) e depois quando se vão, fica aquele vazio que parece que vai te engolir.

Vi meu dois cachorros atuais, João Bolt e Xicó, deitados na calçada. Pensei no meus dois cães antigos e lembrei do que Junior disse: "seguir adiante."

Fiquei um pouco ali, parado, com o copo de água na mão, mirando João Bolt e Xicó e lembrei de muita gente que conheci e que hoje seguiram adiante. E não me refiro somente aos que já não se encontram mais neste plano. Falo também sobre aqueles que por um tempo foram muito presentes na minha vida e hoje, muitos, nem sei se ainda estão vivos: amigos da escola primária, do bets na rua, da faculdade, dos serviços antigos. Gente que durante um bom tempo na minha vida foram um alicerce de sustentação em momentos de incerteza. Pessoas que me ensinaram muito ou que só compartilhávamos momentos bacanas. Olhei para os meus dois cachorros atuais e pensei nos dois póstumos. Talvez a vida seja isso: encontrar pessoas, deixá-las fazer parte da nossa vida e fazer parte da delas. Tentar absorver o máximo de coisas positivas e deixar coisas positivas. Mas, ter sempre em mente que são raros aqueles que iremos levar FISICAMENTE  pra toda vida. Muitos, de uma forma ou de outra, seguirão caminhos distintos, opostos aos nossos e é importante não deixar-se paralisar pela saudade. Tão pouco tentar substituir o espaço que ficou com alguém (ou cachorro) diferente. Tudo e todos são únicos. O que devemos é levar aquilo que ficou de bom por quem passou por nossas vidas e aplicar naqueles que chegarão.   

Sempre seguindo adiante.

obs.: a foto que ilustra esta potagem é do meu cachorro Einstein. Infelizmente não tenho nenhuma foto do Junior.

obs. 2: perdoem o tamanho do texto mas quando se fala de cachorros, todas as linhas são poucas, haha.


EmoticonEmoticon