Livros de Sangue: vol. 1 I o horror em sua forma crua



Nota: ★★

Clive Barker conseguiu se firmar como um expoente do terror e fantasia graças a sua grandiosa imaginação. Adentrar o universo criado por Barker é ter certeza de perscrutar histórias que trarão uma gama acachapante de sensações: medo, nojo, ansiedade, prazer, lascívia,  tudo se mistura neste caldo e o resultado só poderia ser ótimo.

Livros de Sangue é uma série de seis livros de contos. Neste primeiro volume, somos apresentados a seis contos onde a surpresa é o que impera. O autor consegue surpreender de forma ímpar com suas histórias que além de inventivas, são escritas com um detalhismo tão profundo que não seria surpresa acreditar serem fatos verdadeiros não fosse a natureza surreal do enunciado.

O primeiro conto, “Livro de Sangue”, que serve como uma espécie de prelúdio tem como premissa uma casa assombrada. Mas, não espere para uma narrativa comum de fantasmas e demônios: uma investigadora de fenômenos paranormais está fascinada com seu novo pupilo, porém, ela desconhece que as mentiras dele irão despertar a ira dos mortos. Neste conto, além de muito terror e violência, há uma nuance muito forte e presente nos livros de Barker: o sexualização - que é retratada de forma mais forte em outro livro seu resenhado aqui no blog, O Desfiladeiro do Medo  - resenha AQUI

Os outros contos vão desfilar toda a genialidade de Clive Barker. Os roteiros são bem engendrados e os personagens são de uma pluralidade incrível. Desde um psicopata (O Trem da Carne da Meia Noite), passando por um porco (Blues do Sangue de Porco) que te fará enxergar esses bichos com outros olhos. E temos até um gigante feito de pessoas (Nas Colinas, as Cidades). De todos eles, destaco o incrível “O Yattering de Jack”, onde um demônio tenta assombrar um homem em particular, porém não será nada fácil. Neste, o humor negro impera dando um tom irônico e inventivo ao conto.  

Livros de Sangue, Vol. 1  é um livro raro por essas bandas e quando encontrado, o preço acaba por afugentar o leitor. Mas, caso você consiga ter acesso a este incrível material, terá de concordar com o que o mestre do terror, Stephen King, disse sobre Clive Barker: “Eu vi o futuro do Horror... E seu nome é Clive Barker”.

Boa Leitura!


Livros de Sangue: vol. I ( Books of Blood: vol. I, 1984)
Páginas: 233
Autor:  Clive Barker
Editora: Civilização Brasileira

[RESENHA] Servidão Humana | um ode a inquietação, abismos e asas...

Neste misto de autobiografia e ficção, o final da jornada só é superado pelo caminho feito até ali...


Nota: ★★

Se você me perguntar como cheguei a este livro a resposta é a seguinte: Se7evn – os sete pecados capitais. Caso você não tenha visto este filme, veja e saberá do que estou falando. Nunca havia lido nada do autor e fiquei maravilhado com sua escrita que consegue criar uma imersão profunda pautada na vida de sofrimento e superação do personagem central que tem um "Q" de autobiografico...

No livro somos apresentados a Phillip Carey que nasce com uma deformidade no pé que sempre será um ponto fraco físico e psicológico. Não bastando isso, a roda indiferente do destino fez com que o personagem perdesse os pais e fosse criado pelos tios que atados a compromissos religiosos com a paróquia, não tem tempo (talvez vontade?) de dedicar o amor que Phillip necessita - principalmente o tio. Doravante, acompanhamos a vida de Phillip, desde sua educação primária com forte viés religioso, passando pelo descobrimento dos prazeres sexuais, as mudanças na forma de ver e se relacionar com o mundo e, talvez o que, num primeiro momento chama mais atenção, sua relação de amor e ódio com Mildred...

Servidão Humana foi escrito no ano de 1915. Como muitos autores da época, William Somerset Mugham, em seus primeiros livros, faz uma mescla de sua vida e ficção: se no livro o Phillip é claudicante, William é gago; ambos estudaram em escolas religiosas e, posteriormente passam a ver a religião como algo claustrofóbico que serve mais para escravizar do que salvar o individuo...

Passeando por muitas searas do conhecimento – arte, filosofia, história, religião... – o autor consegue discorrer com maestria por todas elas de forma profunda, reflexiva e de agradável leitura – ficando só um pouco cansativo os momentos em que ele se alonga em demasia por vários parágrafos discorrendo sobre alguns pintores...

Independente de partilhar ou não com a visão do autor, é inegável que suas ideias tem um embasamento forte o que no mínimo gera um ponto de interrogação na cabeça do leitor. Principalmente no que concerne ao campo da religião: neste tema específico, vemos como Phillip vai aos poucos deixando que mais e mais incertezas tomem forma em sua mente fazendo com que as regras e dogmas cristãos fiquem de lado ante suas próprias sensações e vivências...  

E apesar de flutuar por muitos temas abstratos e intelectuais, o autor não deixa de lado as relações humanas. Assim, vemos a avareza e desejo de nortear a vida de seus pares na figura de seu tio, ou a da boêmia que leva ao ocaso na figura de um conhecido escritor que Phillip conhecera em Paris. Tudo isto feito de forma não apenas a te jogar informações mas para que você sente-se de frente para o espelho e pense: e eu, como vejo tudo isso? Mas, falar de servidão Humana e não citar a relação de Phillip e Mildred é impossível...

Desde as primeiras aparições de Mildred, o autor já deixa claro que ela terá um papel importante no sofrimento e, posteriormente, amadurecimento de Phillip. A forma como ele decide abordar esta relação imprime uma inquietação e até um dose de raiva: as humilhações que Mildred impõem a Phillip remetem aqueles relacionamentos em que uma das partes crê que de uma hora para outra o outro irá se transformar ante o amor lhe dispensado e toda sorte de sofrimento irá acabar. E neste caminho, Phillip, além de sofrer e amargar o dissabor da desilusão, acaba deixando de abraçar outras oportunidades de ser feliz...

Mas esta relação é uma espécie de microcosmo representando toda a vida de Phillip. Sua desilusão com a religião, a descida até a miserabilidade culminando com o limiar da fome até a redenção na figura de um conhecido, traçam um paralelo com a relação nada sadia dele e Mildred. É como se os picos de felicidade entremeados com longos períodos de sofrimento fossem uma extensão direta de sua devoção quase mística a Mildred...

Ler Servidão Humana é mergulhar num mundo onde as certezas sobre o que se é e como se vê as coisas são apenas borrões. Não há nada definido e no percurso de se encontrar no mundo você é jogado no mais puro abismo. Porém, ao se ver envolto nas asas das incertezas e das angústias, para aqueles que não se deixam sucumbir, é possível vencer os muros das próprias barreiras psicológicas e alçar vôos até então inimagináveis...

Boa leitura

Servidão Humana ( Of Human Bondage, 1915)
Páginas: 605
Autor:  William Somerset Mugham
Editora: Globo

[RESENHA] A Guerra do Paraguai | Ou, as mutações da história...

Apesar de importante, o maior conflito armado da America do Sul é pouco conhecido o que permite muitas interpretações para o mesmo fato...


Nota: ★★

O que mais me impressionou logo nas primeiras páginas deste livro foi notar que pouca coisa sabia a respeita deste guerra, que durou 1864 a 1870. A começar pelo nome: se aqui no Brasil batizamos de Guerra do Paraguai, por lá eles chamam de Guerra da Tríplice Aliança. E a desinformação não fica restrito ao nome do conflito. Com intenções politicas, figuras históricas foram alçadas ao patamar de heróis enquanto outros foram rebaixados ao status de demônios.  E ainda temos a questão que sempre emerge quando ocorre um conflito: de quem foi a culpa? Luiz Octavio de Lima, através de extensa pesquisa, mostra que as coisas não são assim tão claras e precisa-se de um pouco de parcimônia para entender com clareza este conflito que devastou a Paraguai e fortaleceu as forças armadas brasileiras que, dentre outros fatores, culminariam com a Proclamação da República anos depois.

Muito provavelmente você já deve ter escutado que o Paraguai em meados do século XIX era uma potência tecnológica e financeira, totalmente autossuficiente e que rivalizava, comercialmente, com a toda poderosa Inglaterra. Os ingleses, feridos em seu orgulho, não poderiam admitir isto e instigaram Brasil, Argentina e Uruguai a começarem uma guerra contra o Paraguai para findar com esta crescente potência. Ao que tudo indica, isso está muito longe da verdade.

Todos os países envolvidos no conflito eram majoritariamente agrícolas. Nenhum deles tinha um comercio de produtos manufaturados dignos de nota lhes restando apenas o comercio de produtos primários. Inclusive o Paraguai. Então, o que motivou a guerra. Para Luiz Octavio de Lima, os motivos são, basicamente, um reflexo da consolidação dos estados nacionais independentes e questões geopolíticas da região – fruto direto do conflito que trouxe a independência do Uruguai.

Na ânsia de viabilizar outra saída marítima para escoar sua produção, para não ter de depender dos humores de Buenos Aires, Francisco Solano Lopes, general e presidente paraguaio também chamado de El Mariscal, firma uma aliança com o Uruguai num pacto de defesa mútua. Quando o Brasil, por conta de querelas entre uruguaios e fazendeiros gaúchos, decide intervir no Uruguai, Solano Lopes cumpre o acordo de defesa mútua e, não seguindo os conselhos de seu pai que antes de morrer pediu para que o filho jurasse não entrar em guerra com o império, ataca o Brasil. Aí, temos o inicio de nossa guerra. Logo em seguida o presidente uruguaio é deposto subindo ao trono um mais favorável a causa brasileira e se junta a Don Pedro II, imperador brasileiro. Com a adição de Bartolomeu Mitre, a Argentina entra no conflito e o cenário daquilo que seria mais sangrenta e duradoura guerra da América do Sul está montado.

No livro, ficamos sabendo que o Paraguai possuía um grande exército e ainda contava com a bravura de seus soldados. Isso, porém, não foi suficiente para derrotar a tríplice aliança. E ao final da Guerra, temos um Paraguai devastado – nisso, é difícil precisar quantos paraguaios morreram, alguns estimam em 90% da população masculina e outros em 25% - e com percas territoriais. Claro que olhando esses números fica fácil julgar culpados os comandantes da Tríplice Aliança por essa carnificina, porém, não podemos esquecer o estrago causado pelo próprio Mariscal ao seu povo.

Solano Lopes, já sabendo que não teria mais condições de vencer o conflito, poderia hastear a bandeira branca e poupar seu povo de muito sofrimento. Apesar de hoje ser adorado, Solano Lopes era um tirano: perseguiu muitos adversários políticos, mandou açoitar a própria mãe e matar um irmão. Enquanto o povo passava fome, ele desfrutava de uma vida opulenta, tanto que Elisa Lynch, sua esposa, era tida como uma das pessoas mais ricas da região.


É óbvio que vilões não se encontram apenas no lado Paraguaio. Como toda guerra, as máscaras da maldade ficam sempre dos dois lados e nós também temos nossos demônios e o principal deles é o genro de Don Pedro, Cond’Eu. Aqui, não vou me delongar muito porque estou escrevendo algo sobre isto mas não posso deixar de mencionar dois fatos calamitosos perpetrados pelo conde: um incêndio há um hospital de feridos que matou vários paraguaios sem condições de combater e, talvez o mais triste, o massacre de Acosta Ñu.

A batalha de Acosta Ñu, que ocorreu no dia 16 de agosto e que marca o dia das crianças no Paraguai, foi uma passagem realmente triste da nossa história. Basicamente, Solano Lopes, com seu exército já devastado, recrutou crianças (CRIANÇAS) para lutar contra o exército brasileiro e este, comandado pelo Cond’Eu não se fez de rogado em mata-las. Ou melhor, massacrá-las. Muitas delas – a maioria – nem armas tinham, mas isso não arrefeceu os ânimos do conde e o que se viu foi uma carnificina/covardia sem tamanho. Pouco depois deste conflito Solano Lopes fora morto e a guerra acabou - aí você pensa: o que leva um comandante a colocar crianças pra lutarem e adversários lutarem com elas?

Logo após a guerra, a figura de Solano fora demonizada no Paraguai como alguém que levou o país ao colapso. Em meados do séc. passado, muitos revisionistas, com propósitos políticos claros, metamorfosearam a figura del Mariscal como alguém quase santo que lutou contra a tirania de países que tinham como interesse servir aos desejos da Inglaterra. É dessa época que vem a ideia de um Paraguai quase paradisíaco.

Longe de ser um livro definitivo sobre o tema, A Guerra do Paraguai, de Luiz Octavio de Lima, consegue lançar luz sobre algo pouco conhecido da história do Brasil e tenta espantar ideias propagandísticas sem nenhum viés histórico e documental. 

Claro, não me assustaria que daqui algum tempo, algum outro politico use isso,  guerra, com algum viés pessoal. Por isso que livros assim são importantes.

Boa leitura.

A Guerra do Paraguai (2016)
Páginas: 448
Autor:  Luiz Octavio de Lima
Editora: Planeta
Comprar: A Guerra do Paraguai

[RESENHA] It - A Coisa | Muito além de um palhaço assassino...


Nota: ★★

Derry é uma cidade peculiar. Contra as probabilidades dos especialistas a cidade conseguiu se desenvolver relativamente bem. Para alguns moradores é um local bom para se viver, para outros tantos, é uma cidade amaldiçoada. Ao final das mais de mil páginas do livro It, a Coisa, você se inclinará a concordar com o segundo grupo...

Durante a narrativa, vemos como uma porção de catástrofes e desastres assolaram Derry: um incêndio matando vários em um clube; a chacina a uns foragidos da lei com participação de grande parte da cidade; o homem que matou vários com um machado enquanto outros assistiam sem se importar e mais outras tantas tragédias que parecem indicar que Derry é um local amaldiçoado. E esta maldição tem um nome: Pennywise...

Pennywise, apesar de ter uma manifestação física, está em toda Derry. Em todo sentimento negativo que nasce pela face escura de cada individuo e que é potencializada ou iniciada pela influencia maligna de Pennywise...

Pennywise, o palhaço assassino, é uma criatura que nem sempre se apresenta nesta forma – apesar de esta ser a mais corriqueira. Tudo depende do seu medo. Alimentando-se do medo das pessoas, Pennywise esteve presente em todas essas tragédias e tem um interesse especial por crianças e somos apresentados a ele quando este decide matar Gerogie Denbrough – naquela cena icônica do barquinho e o palhaço no bueiro...

Quando li A Zona Morta, percebi que mais do que amedrontar as pessoas, os livros de Stephen King conseguem evocar um turbilhão de sentimentos dentro de nós. Você se vê, ao menos parcialmente, em alguma situação semelhante a dos personagens retratados. Mesclado a isto, adicione a escrita detalhista do autor para tornar cada livro de King uma verdadeira viagem sobre sentimentos e relações humanas. King consegue influir neles uma realidade incrível que parece serem seres de verdade que a qualquer momento irão sentar ao nosso lado da poltrona e interagir conosco...



E é isto, a relação entre nossos personagens unidos pelo mesmo destino (Ka-tet),  que é destruir o palhaço assassino Penywise, que tornam It, A Coisa, um dos melhores livros (se não o melhor) de Stephen King...

O Terror volta a assombrar a cidade de Derry no verão de 1985. Um jovem é morto e tem seu braço arrancado. Apesar disso não constar nos relatórios oficiais da polícia, um palhaço fora visto na cena do crime. Este evento trás à tona um juramento feito a 30 anos por sete crianças que mediante um pacto de sangue prometeram retornar a Derry caso o horror daqueles tempos ressurgisse. O livro é narrado de forma não linear alternado presente e passado e acompanhamos a vida de nossos personagens em duas épocas distintas. E, apesar da vida adulta deles ser interessante, é na relação entre eles enquanto crianças os melhores momentos do livro...

Apesar de termos umas pinceladas de terror nas páginas iniciais do livro, Stephen King, como de praxe, prefere desenvolver os personagens de forma amiúde para que nos familiarizemos com eles e nos importemos. É desta forma que acompanhamos as crianças Michael Hanlon (o único que quando adulto ficou em Derry sendo o primeiro a sentir sua presença), Richard Tozier (o piadista), Eddie Kaspbrak (hipocondríaco), Bill Denbrough (o líder não declarado do grupo), Stanley Uris (o escoteiro), Beverly Marsh (a garota do grupo e minha personagem preferida) e Ben Hasncon (o gordinho e construtor da tropa) formarem o Loser's Club, E depois, separados em suas vidas adultas – que a exceção de Beverlly, não é tão interessante assim...

O Losers Club, é um grupo de desajustados que encontram força e camaradagem para superar toda a sorte de mazelas que os espera. E põe mazelas nisto: bulliyng, violência doméstica, problemas psicológicos, morte, ausência, são todos componentes que tornam a vida de nossas crianças triste, mas apoiados e amparados um no outro conseguem mostrar a beleza que a vida pode ter ainda que esteja envolta em catástrofes. E esta interação entre eles evoca um sentimento de nostalgia que chega a doer. É impossível ler estas páginas e não sentir uma saudade imensa dos tempos de crianças e lembrar das brincadeiras, medos e aventuras daquela época...

E Penywise sabe que os Lossers tem poder. Isto fica claro desde o dia em que Ben encontra Bill e Eddie na represa ao fugir do maníaco Henry - um adolescente perturbado que exemplifica muito o espirito da cidade. É como se eles, Bill e Eddie estivessem esperando ele chegar para começar a compor Ka-tet. Outro ponto latente disso é quando Eddie está no hospital e uma áurea de energia quase sólida emana deles. E eles sabem que só eles podem deter a Coisa – como eles chamam o palhaço – pois os adultos não conseguem senti-lo. É como se estivessem anestesiados pelo poder da Coisa como quando o pai de Beverlly a persegue e um senhor olha indiferente e entra pra dentro de casa como se nada estivesse acontecendo...

Apesar de imenso, o livro consegue te prender e o final vertiginoso é devorado coma a voracidade de um homem que encontra um oásis no deserto. Ainda temos de quebra uma passagem por entidades cósmicas do Kingverso representadas de forma mais clara em sua saga A Torre Negra...


Ler It é como andar em uma montanha russa de emoções. Medo, alegria, felicidade, surpresa..., uma miríade de sensações que bagunçam nossa mente. São várias as situações que nos fazem lembrar de nós quando crianças e que são escritas de tal forma que é impossível não desejar um retorno ao passado pra reviver aqueles dias. 

It, A Coisa é um livro que versa muito além de terror. É um tratado sobre como a amizade é importante e de como fatos marcantes na infância  moldam nosso caráter futuro. Pode apostar seu couro nisso.

Obs.: lá pelo final do livro tem uma cena envolvendo Beverly que nem sei  direito o que pensar. Faz quase um mês que li o livro e ainda não cheguei a uma resolução quanto ao que vi. Entretanto, num primeiro momento achei desnecessário e de uma falta de tato muito grande do autor...

Boa leitura

It, a Coisa (It, 1986)
Páginas: 1103
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Comprar: A Coisa


[RESENHA - HQ] Do Inferno, de Alan Moore e Eddie Campbel


Nota: ★★

Quem já leu algum trabalho de Alan Moore, sabe que o autor, costumeiramente, faz uma crítica forte ao sistema vigente no qual se passa a obra em questão, tratando de fazer um paralelo sútil, porém marcante, com a nossa sociedade. Vemos isso, por exemplo, na Graphic Novel “V” de Vingança (mais sobre a obra AQUI ) – sim, aquele da máscara dos Anonymous. Em Do Inferno, Alan Moore vai um pouco mais além: não bastasse fazer uma leitura do zeitgeist, ele reconstrói uma parte sombria da história de Londres entregando sua versão dos fatos sobre os crimes de Whitechapel deflagrados pelo icônico e lendário Serial Killer, Jack, o Estripador


O cenário da nossa HQ é uma Inglaterra no fim da Era Vitoriana. Este período foi de uma crescente prosperidade para os habitantes da terra da rainha graças as moedas que entravam aos montes na nação devido a expansão do Império Britânico e pela consolidação da Revolução Industrial. Claro, que toda esta prosperidade não era uniforme: muitos trabalhadores das fábricas recebiam quantias ínfimas para viver e, muitos ainda – principalmente  mulheres – não encontravam serviço algum. É nesta Londres suja e poluída pelos resíduos das chaminés que chegamos até o bairro de Whitechapel.



Quando o corpo de Mary Nichols – a primeira vítima Jack, o Estripador  – foi descoberto no dia 6 de agosto de 1988, com cortes profundos na garganta e partes do abdômen removidos, uma onda de medo e especulações acometeu Londres: quem teria feito isto? Porquê? Foi um crime passional? Mas, poucos creiam que outras quatro corpos – Annie Chapman, Elizabeth Stride, Catherine Eddowges e Mary Jane Kelly – também seriam vítimas de tão brutal prática.

Muito se especulou sobre quem e o porquê dos crimes e várias teorias foram levantadas. Alan Moore, através de uma extensa pesquisa e juntando elementos da teoria do jornalista Stephen Knight, acrescenta alguns tons seus e, apesar da teoria do jornalista já ter sido desacreditada, você, acreditando ou não, dificilmente irá negar a genialidade do mago.

Do Inferno é uma história que não tem classificação livre. As cenas de sexo são explícitas e a violência aguda é mostrada sem maiores pudores. Os traços de Eddie Campbel, que seguem a tendência impressionista da época, podem parecer simples mas conseguem atenuar o teor trash da narrativa e ainda servem para salientar a sujeira e abstração da história resultando num trabalho incrível do desenhista que fez toda a história em preto e branco.


Tela "A Pulga" de William Blake
Desde o início sabemos quem é o assassino. Não há ESTE mistério para ser desvendado. Sendo assim, o autor confia no roteiro envolvente num misto de fantasia (temos até passagens de um vislumbre do futuro) e realidade para que o leitor não se entedie com a história. E, como estamos falando de Moore, espere um afresco brilhante. Seguindo a narrativa por alguns pontos de vista versando por diversas áreas do conhecimento como arquitetura, Maçonaria, metafísica, insanidade, história... ,o autor sugere um intricado enredo de mortes em série e terror para esconder um escândalo que abalaria as estruturas da casa real.

Muitos personagens históricos são mencionados ou aparecem na HQ: Aleister Crowley, Oscar Wild, William Blake, são exemplos de personagens reais que aportam por aqui. Meu destaque vai para uma cena envolvendo a concepção de Adolf Hitler e o eco que isso provocou no bairro de Witechapel.


Momento da concepção de Adolf Hitler

Além de uma narrativa fabulosa, o autor faz questão de colocar um apêndice com as bases para cada cena em questão que renderiam um livro à parte. É importante dar uma olhada a cada final de capítulo para situar-se melhor.  

Como disse no primeiro parágrafo, Moore insere em suas histórias uma forte crítica ao poder dominante. As maquinações das esferas de poder que refletem na vida de gente comum são mostradas de forma aguda pelo autor e isso nos remete a pergunta: e nós, o que podemos fazer? Será que seremos algum dia livres disso? Ou teremos de esperar por um Guy Fowks? 


Moore e Campbel fazem um retrato assertivo da Inglaterra  no final do século XIX nesta saga que discorre sobre Jack, o Estripador resultando em uma obra magnífica, soberba e genial. Não deixem de ler.



Boa leitura

Do Inferno (From Hell, 1989-1996)
Páginas: 592
Autor: Alan Moore e Eddie Campbel
Editora: Veneta
Comprar: Do Inferno

O Estuprador, o Ônibus e a Lei...


Diego Ferreira de Novais estava caminhando tranquilo. Talvez tenha comido ovos mexidos nos desjejum, ou um pão com queijo e doce de leite. Ou, ainda, nem tenha comido nada. O fato é que na manhã do dia 29/08 ele estava plácido e tranquilo como uma criança que dorme sob os olhares vigilantes e amorosos dos pais. Pendendo em seu costado mais de uma dúzia de acusações que variam entre o nada constrangedor ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR e o totalmente livre de violência ESTUPRO...

Mas isso não é problema para Diego Ferreira de Novais: mesmo com esta ficha criminal maior que a distância entre a Lua e a Terra, ele anda livre e sorridente pelas ruas de São Paulo. Apesar de, possivelmente, muitas das mulheres as quais foram VÍTIMAS do INOFENSIVO CIDADÃO DE BEM, terem medo até de abrir os olhos, ele não tem do que se preocupar. Já sabe que o roteiro da sua vida criminal foi vazado muito antes do roteiro da sétima temporada de Game of Thrones, e respira de forma meditativa pois sabe que seus atos são punidos com a total impunidade...

Por volta do Treze horas, Diego Ferreira de Novais está com a expectativa lá em cima. Não sabemos se ele escolhe a vítima de forma repentina ou se é algo programado. O fato é que daqui a pouco mais uma mulher deste nosso Brasil entrará para as estatísticas...

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Cíntia Souza está sentada no banco de ônibus. Talvez se ache com sorte. Tendo em vista a superlotação dos coletivos nas grandes capitais, encontrar um lugar pra sentar é quase como ganhar na Mega Sena. Distraída, ela mexe em seu celular, mal repara que próximo à ela há um homem em pé próximo à ela. Apesar de haver outros bancos vazios, o rapaz de camiseta verde permanece de pé. Entre uma visualização e outra no celular, ela sente que alguma coisa viscosa atingiu seu pescoço. Ela olha e vê um homem, nosso INOFENSIVO Diego Ferreira de Novais, ainda com o pênis na mão se masturbando, olhando com total indiferença e satisfação para Cíntia Souza  que após um período de breve suspensão da realidade, se dá conta que o que acaba de molhar seu pescoço é o sêmen de Diego Ferreira de Novais...

Cíntia Souza grita, todos se desesperam.  Cobrador e motorista se dão conta do ocorrido. Param o ônibus, fecham as portas para que o meliante não fuja – se bem que sem  motivo, pois nosso personagem não tem nada a temer...

Diego Ferreira de Novais, após a emoção de mais um crime cometido, está tranquilo. Já sabe  o final do roteiro e, melhor ainda: sabe que seu roteiro não foi escrito por M Night Shyamalan e não há uma reviravolta final. Os autores de seu script são a justiça brasileira que tem sempre um jeito todo especial de mostrar que aqui, meu chapa, as coisas vibram numa frequência estranha...

Preso, Diego foi solto no dia seguinte pelo juiz José Eugenio do Amaral Souza Neto, acatando recomendação do Ministério Público de São Paulo. O juiz destaca: que não houve constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada em um banco de ônibus surpreendida pela ejaculação do indiciado”...

Bom, talvez, entendeu o juiz, que se Cíntia estivesse de pé, aí sim, poderia configurar alguma coisa de maior gravidade. Mas, sentada, não houve nada que pudesse representar ameaça a esta histérica jovem...

O fato é que a justiça no Brasil faz teeeeeeeeeemmmmmmmpo que não age de acordo com os anseios da comunidade antenada com os dias atuais. Há um desprezo pelo que ocorre com nós mortais uma vez que os autores das leis e seus aplicadores parecem, e possivelmente vivem, em uma realidade paralela a nossa. Não me surpreenderia se ora ou outra, alguém ser absolvido de estupro porque o acusado revogou seu direito a prima noche. Vai saber...

Quanto a nós, que assistimos a tudo isso, transborda a indignação, o sentimento de impunidade. E relatos como o de Cíntia: “a minha cabeça está confusa, não tenho tido paz, dormir, comer está tudo ruim. Quando durmo sonho com algo parecido. E parece que estou cansada o tempo todo.”, parece ser o que sobra para as vítimas...

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No livro Missoula: O Estupro e o sistema judicial em uma cidade universitária, de Jon Krakauer, (resenha aqui), vemos como é difícil para uma vítima de estupro conseguir levar um caso ao tribunal e como a sociedade, por vezes às relega o papel de vilãs. No caso de Cíntia, ainda há o fato de ela, quem sabe, cruzar com nosso inofensivo colega. Tomara suas orações estejam em dia e que o senhor Jesus a proteja já que nossas leis nossos não vêm em figuras como Diego algo que represente perigo...

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Diego Ferreira de Novais, deve estar agora assistindo à um bom filme, comendo pipoca. Quem sabe usando seus processos como rascunho ou fazendo aviãozinho. Talvez fique um tempo na encolha só esperando a poeira baixar pra atacar novamente pois este sim, pode confiar cegamente na justiça brasileira...

Nosso Eu por aí...



Toda vez que penso no meu passado, e creia-me, depois dos trinta pensa-se muito nisso, minhas memórias quase sempre me levam por aquelas pessoas que tanto fizeram parte da minha vida. Verdade seja dita: a grande maioria daqueles que tive a honra de conviver nem sei o que andam aprontando. Se casaram, realizaram seus sonhos, se são felizes, se ainda estão vivos...

Independente disso, é notável como somos moldados por aqueles que chamamos de amigos. Nossa forma de pensar, de agir, de viver, reparando ou não, é inadvertidamente influenciada por aqueles que deixaram um pouco deles em nós. Somos, ainda que em uma parte ínfima, reflexo daqueles que gostamos. Sendo assim, poderia até escrever algo sobre a sabedoria de escolher correto nossas companhias e todo este blá, blá, blá, mas não vou. Até porque, isto é muito relativo. Se creio piamente que nossa forma de navegar neste mundo é influenciada por nossos amigos, muitos do que foram nocivos a nós no passado, podem servir de exemplo hoje para que não esbarremos em algum iceberg por aí.

Desta forma, o que me resta? Bem, alguma coisa.

Em um texto que escrevi outro dia, um dos que mais me orgulho de tê-lo escrito por sinal (para ler clique AQUI) havia me comprometido a falar sobre amizade. 

E aqui vai.

Amigo é um cargo por vezes ingrato. Mesmo que tenham sido nosso verdadeiro pilar de sustentação durante um bom tempo de nossa curta existência, basta um leve deslize para que atiremos para outra galáxia tudo que bom e lindo que foi erigido outrora. Pecamos por exigir demais de nossos camaradas.

Sempre sonhamos, pedimos e desejamos que nossos mais fiéis e leais amigos sejam benevolentes conosco e entendam que por vezes erramos, afinal, somos humanos. Porém, nem sempre usamos esta métrica em favor do outro. Queremos uma perfeição quase religiosa e, meus caros, isto não existe. Somos falhos, por vezes chatos e falsos, inconsequentes, e um monte de adjetivos ruins que você pode encontrar no Google. Mesmo assim, esperamos a compreensão dos nossos verdadeiros amigos. Por que, então, agimos assim? 

Difícil responder!

Amizade é algo belo, forte e importante demais para nos atermos a coisas menores que o amigo em questão. Amigos são e sempre serão nosso elo mais forte com aquele tipo de amor que atravessa eras. Aquele tipo de amor que não espera muita coisa em troca. As vezes, uma boa conversa ou um sinal de apoio já são suficientes pra tornar mais fácil aquele caminho cheio de pedregulhos e espinhos.

Costumo dizer que meus amigos são vários, mas não por soberba e por me achar especial e sim por que vejo o mundo da amizade por uma ótica distinta. Não acho que o amigo precise estar sempre conosco nos momentos difíceis. Tem horas que o mais leal e fiel amigo não sabe e nem está preparado para nos ajudar. Mas, olhando para o lado, pode ser que exista uma outra pessoa que pode nos ajudar. Sempre penso em como as coisas se arranjam pra que cruzemos com pessoas fantásticas. Não porque nos completam ou por que não viveríamos sem ela. Nada disso. Mas porque, ainda assim, é escolha nossa querer ficar pertoE, as vezes, ser amigo é só partilhar momentos felizes mesmo. Quem sabe o milagre que uma tarde de sol em boa companhia pode operar num futuro incerto?

Sempre que olho aquelas pessoas que são amigos há tempos, fico feliz em saber que, provavelmente, muitas coisas de ruim aconteceram com eles, mas que isso não impediu que um visse no outro uma parte de si e seguiram adiante com a sombra do outro pairando nos momentos difíceis. As vezes fica aquela marca, tipo uma tatuagem, que doeu pra fazer mas quando olhamos, nossos olhos transbordam de emoção. Em suma, é só um estigma de que o outro não é perfeito. Assim como nós.


Agora, com meus trinta e poucos anos (há momentos que penso estar com 18, outras com 70, vá entender. Geminiano, né?) vejo como sou muito daquilo que absorvi dos meus pares. E quando este sentimento nostálgico me invade, torço para que eles, meus comparsas, também tenham absorvido algo bom deste que vos escreve. E que, onde quer que eles estejam, sendo aqui ou em outro plano, em outro onde, que recordem das melhores partes de mim que está com eles sendo um nosso Eu, que está por aí sendo maior que nós mesmos...        

Balanço de Leituras - até aqui #2



Longos dias e belas noites sai.

Meio ano já se passou e como de praxe, temos a impressão que janeiro foi ontem. Mas a percepção do tempo é enganosa. É só olhar para a miríade de coisas que fizemos e passamos que nota-se que apesar da celeridade do tempo, já acompanhamos muitos pores de sol. E, com relação as minhas leituras não foi diferente. Até o momento li 18 livros contabilizando 7659 páginas. Um livro a mais do que no mesmo período do ano passado.

E foi com base nas minhas leituras do ano anterior que estipulei a quantidade de livros que iria ler este ano. Algo em torno de 35 livros que é a minha meta literária do SKOOB – para saber quais livros clique AQUI. Talvez adicione um ou mais livros ou, talvez não consiga ler todos os escolhido, mas o saldo final não ficará muito diferente disto. E, pela primeira na história deste que vos escreve, estou conseguindo realizar minha meta.

Dos livros que li este ano, somente um, Mistérios Sombrios do Vaticano, foi uma leitura não muito dignificante. Todas as outras leituras foram muito boas. Tive o prazer de ler alguns livros fantásticos. Cito cinco que se destacaram: O Conde de Monte Cristo, História da Sua Vida e outros contos, Missoula, Eu Sou a Lenda (para ler o que achei sobre esses livros é só clicar no nome) e Do Inferno. Todos eles, apesar dos gêneros distintos, são ótimos e, possivelmente, estarão no meu Top 10 no final do ano – para ver o meu Top 10 do ano passado é só clicar AQUI.

E pra fechar estes apontamentos, atualmente estou desbravando Servidão Humana. Espero que até o fim do ano consiga manter esta pegada e alcance minha meta.

É isso aí pessoal, espero revê-los por aqui este ano. Fui.

Longos dias e belas noites.