NÓS...


Moço, quem disse que você é isso:
Riqueza, alegria, ostentação e paz?
Sério que é só?
O que te define?
Tua casa, teus posts teu anel?
É isso que tu e´s?

Não sou, não fui. Estou sendo.
Um processo eterno de construção.

Nada do que tens te representa.
Apenas apresenta teus gostos.
Moço, tu podes mais.

Sonhe, brigue, chore...

Abrace tua fé ou a falta dela...

Moça, é essa tua fé:
Tua casa, teus amantes e tuas curtidas?
O Insta teu templo, teu deus e tua mãe?
Amores inócuos tua arma?
A roupa cara teu único manto?
Espanto, isso me causa!

Não és minha, não és dele. És de tu mesma.
Tua alma é tua dona, dê mais a ela...

Teu homem não te define!
Tua casa não te define!
Tua carne não te define!*

Ame, beije, se desespere
Não aceite menos que isso.

Moço, Moça, Eu, Nós...
O que nos define?
A réplica do que está aí,
No topo do Twitter, do snap?
Na etiqueta luxuosa?

Ver, ousar, recriar, reinventar...
Sentir a brisa do amor ao desespero
Com tempero de quem renasce a todo momento.

Somos nosso próprio lar,
Morada do sagrado
Amparado naquilo de melhor e mais forte que temos...

Nós...


*trecho extraído da música "Triste, louca ou má". 

[RESENHA] Sete Minutos Depois da Meia Noite, de Patrick Ness

Um livro aparentemente superficial, mas que carrega uma profundidade imensa e que nos faz refletir sobre nossas dualidades, imperfeições e medos além de render algumas lágrimas.

Foto site: saidaminhalente.com 

Nota: ★★★★★

A eminência da perca de um ente querido é algo avassalador. Imaginar que, daqui a pouco, aquele ser que tanta importância tem na nossa vida pode não estar mais aqui é algo difícil de equacionar. Essa situação soa mais desesperadora ainda quando quem passa por isso é uma criança: até que ponto ela consegue suportar? O que será daqui em diante? Como equilibrar a miríade de sentimentos possivelmente conflitantes? Como não sucumbir junto e se deixar levar por esse rio de sofrimento e angústia? Mostrando isso, a perca e a dor pelos olhos de uma criança, Patrick Ness consegue nos brindar com um livro emocionante e belíssimo.

Logo nas primeiras páginas do livro, você já nota que o tema abordado é pesado. Connor O’Maley, um garoto que vive sozinho com sua mãe, Lilly, que está passando por uma fase difícil pois está muito doente e talvez não consiga resistir. Seu pai mora em outro país e sua avó não é das pessoas mais fáceis de conviver. De cara, o autor já nos presenteia com toda essa gama de informações para nos inserir na atmosfera que cerca Connor. Somado a tudo isso, Connor ainda é vítima de bullying  na escola e vem sofrendo, já algum tempo, com um pesadelo que lhe assusta e parece lhe consumir.

É impossível não criar uma ligação automática com Connor. O momento pelo qual ele está passando nos toca profundamente. Ter de equacionar tudo isso com a iminência da perca da mãe requer um espírito de grandeza muito grande para não sucumbir, principalmente se tratando de uma criança. Toda a fleuma aparente de nosso pequenino, esconde um turbilhão de sentimentos fortes e reprimidos, afinal, como reage ama criança com a possível morte da mãe? É neste ponto que surge o “Monstro”.

Aqui as coisas começam a tomar um rumo que, apesar de flertar com o fantástico finca os pés em uma bela alegoria. O Monstro que surge para Connor, é uma personificação da árvore de Teixo que ele avista de sua janela. Apesar da opulência ele não assusta o nosso garoto. Surgindo sempre (QUASE SEMPRE) à meia noite e sete, ele vem pra contar três histórias e ouvir uma quarta.

As histórias narradas pelo Monstro são uma fonte magnifica de reflexão. Apesar de apresentarem uma moral duvidosa aos olhos de Connor, os relatos transmitidos pelo monstro visam mostrar que nem sempre as pessoas são uma coisa só. Como disse Paulo Coelho, "bem e mal são faces diferentes da mesma moeda". Tanto a rainha bruxa, o pároco santo e o garoto invisível guardam lições profundas que tem um propósito bem específico na vida de Connor. Todas as histórias contadas pelo monstro são uma forma de inserir na mente dele que existe sempre uma dualidade na vida. Nem tudo é uma estrada de uma única via, preto no branco. O fato de termos feito algo positivo não implica necessariamente que sejamos bons e a máxima se aplica ao inverso.

Tendo contado sua história, o Montro exige que Connor lhe conte a quarta. Aí, notamos o porquê das histórias do monstro e, principalmente, como é complicado viver em situações extremas. Os sentimentos conflitantes e paradoxais de Connor são um retrato daquilo que nós, seres humanos, somos: seres totalmente complicados. E esta verdade, a verdade de Connor, mostra o quanto isso nos torna frágeis e belos.

O final do livro é algo de embargar a voz de qualquer um. É um sentimento que consegue ser compartilhado mesmo por aqueles que não tenham passado pelo mesmo que nosso garoto. É um momento forte, mas que foi passado ao papel de forma muito bela pelo autor que conseguiu mesclar algo profundo e extremamente triste com uma singeleza magnifica. E toda essa acurácia narrativa não se deve somente a Ness.

A ideia do livro foi originalmente concebida por Siobhan Dowd, porém ela acabou sucumbindo de câncer aos 47 anos antes de terminar a obra. Apesar da recusa inicial, Ness acabou aceitando o desafio e entregou um trabalho que deixaria Dowd orgulhosa. Vale citar também que o livro já se tornou filme e a adaptação conseguiu transpor para as telas toda a carga emotiva do livro com um toque visual incrível. Tem na Netflix e vale à pena conferir.

Tendo como foco a dor da perda, Sete Minutos Depois da Meia Noite é um retrato das nossas contradições que nos impelem por caminhos que nem sempre entendemos, mas que cada qual à sua maneira, salientam aquilo que temos de mais imperfeitos: somos humanos.   

Boa leitura.

Sete Minutos Depois da Meia-noite (A Monster Calls, 2011)
Páginas: 160
Autor: Patrick Ness
Editora: Novo Conceito
Comprar: AMAZON

INDICAÇÕES DA SEMANA... #2



Hoje nas indicações da semana temos um rol bem variado de filmes: uma dramédia adolescente; uma animação da DC; um filme sobre o mercado de investimentos o jornalismo e o compromisso com a verdade; e um documentário sobre um serial killer soviético. 


QUASE 18

Nadine (Hailee Steinfeld), é uma adolescente que apesar de sua personalidade irritante, consegue cativar o espectador. Sua vida torna-se deveras solitária quando sua melhor e única amiga começa a sair com seu irmão. O filme é bem interessante. Apesar de muitos momentos clichês (o adolescente que não se encaixa em lugar nenhum e é revoltado com o universo, a busca por um amor em outros lugares quando está ao alcance das mãos...), a diretora Kelly Fremon  Craig entrega um trabalho engraçado que consegue dialogar com o público jovem (presente!) sem ter de vergar para os besteiróis americanos. E ainda temos uma interpretação hilária de Woody Harrelson na pele de um professor nada convencional.

JOGO DO DINHEIRO

Atitudes inescrupulosas de investidores do mercado de ações já serviram como enredo para muitas produções Hollywoodianas. Em Jogo Por Dinheiro, segundo longa de Jodie Foster como diretora, ele serve apenas como pano de fundo para um assunto tão ou mais relevante: jornalismo e o compromisso com a buscar da verdade.  

Lee Gates (George Clooney) apresenta o programa “Money Monster”, um programa de dicas do mercado financeiro onde o apresentador, entre uma dica e outra, faz performances megalomaníacas dignas de popstars. Um dia, Kyle Budwell (Jack O’Connell), após ter seguido dicas do apresentar e perder 40 mil dólares, invade o programa, faz Gates refém e exige explicações para saber o porque desta perca. Apesar de se tratar do mercado de ações, o filme é sobre jornalismo.

Há sempre aquela dúvida sobre o quanto os programas informativos são verdadeiros. Fica sempre uma pulga atrás da orelha:  a notícia é realmente verdadeira ou só existe busca por mais audiência? No filme, o debate é levado ao extremo. Guiado pela produtora Patty Fenn (Julia Roberts), Gates torna o sequestro que está sendo transmitindo ao vivo em um show na busca de saber realmente o que ocorreu com o dinheiro de Kyle e tantos outros acionistas.

Com ótimas interpretações, um clima tenso e um sentido de urgência, o longa consegue prender atenção e te faz refletir sobre o jornalismo e a moral – ou falta de moral – por trás das telas. 

JOVENS TITANS: o contrato de Judas

Aaaa, DC!!! Toda vez – ou quase sempre – que vejo uma animação da DC Comics, me pergunto porque não repetem a mesma qualidade em seus filmes. Sim, ok, não seria tão simples assim. Um longa, segundo os “intendidos” é algo muito menos complexo do que uma animação, entretanto, os roteiristas dos filmes deveriam consultar os roteiristas das animações. Mas, enfim...

O Contrato de Judas, mostra os Jovens Titans comandados pela Estelar  que se vê insegura no posto. Robin, BezouroAxul, Ravena, Mutano e Terra, vivem de combater o crime e os embates da vida de adolescente. Até que surge um super vilão e uma traição pra abalar as estruturas da equipe.

O roteiro simples é muito eficiente. Os diretores se preocupam em estabelecer uma interação entre os personagens. Grande parte da animação foca na vivência dos jovens além de sua vida como heróis: suas dificuldades, alegrias medos. Isso implica em um sentimento empático por parte dos espectadores que quando há o momento do confronto com o traidor (Judas), é impossível passar incólume a isso. 

Seria muito bom  ver este mesmo talento nos filmes de Batman e Cia.

ANDREI CHIKATILO, O AÇOUGUEIRO DE ROSTOV

Agora vamos falar sobre um documentário que foi ao ar pelo canal  Byograph Channel. Apresento-vos o Açougueiro de Rastov. Durante 12 anos (de 1978 a1990) a região de Rostov foi assombrada pelo assassino em série Andrei Romanovich Chikatilo que tinha como características esquartejar e eventualmente consumir parte dos cadáveres de suas vítimas. Ao todo, Chikatilo assumiu a responsabilidade na morte de 53 pessoas.

Assassinos em série é um tema que, a despeito dos horrores, nos fascinam. A ideia de um sociopata que pode nesse momento ser alguém muito próximo a nós e nem notarmos é algo que nos faz refletir. E, mesmo sabendo que serial killer pode ser qualquer, é impressionante o quanto saber quem é pode nos chocar.

A trajetória de Chikatilo é daquelas biografias dignas de filmes. Infância difícil - seus pais e irmãos maiores passaram pelo Holocausto Ucraniano (Holomodor) e com problemas sexuais, Andrei foi alguém dividido entre família, estudos, fidelidade ao partido e matar. Este último sendo muito bem sucedido em partes graças a polícia russa.

Devido a ideologia soviética, uma pessoa normal não poderia cometer tais crimes – isso era coisa do ocidente capitalista – sendo assim, não poderia uma pessoa só realizar estes crimes. Os crimes eram feitos por várias pessoas que não tinham ligação entre si, ou seja, com base em sua ideologia estúpida, o governo soviético possibilitou uma "carreira" muito extensa a ChiKatilo.

Andrei Chikatilo, O Açougueiro de Rostov, além de descrever de forma bem informativa a vida do serial killer, o documentário também é um retrato de URSS atrasada, com uma ideologia cega 

****************

Bom, é isso aí pessoal. Espero que apreciem as indicações. Até a próxima...

VIVENDO ATRÁS DE MÁSCARAS...

 


Nota: ★★★★

Stanley Kubrick foi um diretor que eventualmente se envolveu em polêmicas. Diretor cultuadíssimo, para alguns o melhor a pisar este pálido ponto azul, filmou obras que são verdadeiros clássicos da sétima arte como Laranja Mecânica e 2001, Uma Odisséia No Espaço. Kubrick também foi um diretor que causou polêmicas com seus longas.

Só pra citar algumas: quando filmou “Lolita”, o diretor provocou a ira do Vaticano com suas cenas lascívias de uma jovem; já “Laranja Mecânica”, causou  alvoroço na Inglaterra pois muitos correlacionavam o filme com o aumento da violência no país; e esta que é, pra mim, a mais legal que se refere a “2001, Uma Odisséia no Espaço”. Para muitos conspiradores por aí, Kubrick usou o aparato técnico que usou para filmar o longa para ajudar o governo estadunidense a criar a farsa da chegada do homem à lua (!!!).

Por este breve histórico, nota-se que a mística em volta do autor era grande. E em seu derradeiro filme, o diretor acabou fornecendo mais munição àqueles que creem piamente que ele era alguém envolto em abstrusidades e conspirações governamentais. Sim, vamos falar sobre o fantástico De Olhos Bem Fechados.

De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut – 1999), adaptado do conto “Traumnovelle”, de Arthur Schnitzler, a despeito de ser meio menosprezado, para mim, é um dos melhores filmes do diretor e faz tempo que penso em escrever sobre ele aqui no “broguinho”. Além de ser um filme fascinante, como foi dito no parágrafo acima, ele joga mais lenha nas polêmicas envolvendo o autor, principalmente devido ao que aconteceu com o diretor logo após o fim das edições do longa e ainda lança questões sobre a nossa face ante a sociedade.

Estrelado por Nicole Kidman (Os Outros), e Tom Cruise (Missão Impossível), que na época eram os queridinhos de Hollywood, o filme já causou polêmica antes mesmo de estrear. Anúncios promocionais sugeriam que veríamos Kidman em nu frontal. Apesar de algumas cenas mostrando a atriz sem o soutien (que não sanou a curiosidade de muitos) o autor mostrou que tinha coisa muito mais interessante para mostrar.

Cruise interpreta Bill Harford, um médico bem sucedido, casado com a bela Alice, Nicole, que vivem uma vida feliz junto com sua filha num estereótipo da classe média muito bem representada por aqueles comerciais de margarina. Na noite de Natal, o casal vai até a casa de Victor Ziegler, um paciente milionário de Bill, que está dando uma festa para celebrar a data. Tudo transcorria naquele clima de comercial de Doriana até que os instintos do casal afloram: ela, flertando com um húngaro de nome Sandor Szavost enquanto Bill se derrete por duas jovens modelos que querem “se aproveitar” do doutor. 

Aqui, já vemos como o diretor quis quebrar um pouco aquela ideia de casal perfeito. Isso fica mais implícito quando levamos em consideração a escolha dos atores. Kidman e Cruise eram vistos como modelos a serem seguidos por todo casal de enamorados que desejam sair da mediocridade de relacionamentos pequenos: ricos, bonitos, famosos, apaixonados e fiéis. O retrato de seus personagens contrasta com suas vidas mostrando um pouco do pessimismo que o diretor via em instituições, incluindo o casamento.

Acompanhamos este flerte de ambos até que Victor chama Bill às pressas ao banheiro: uma jovem que estava transando com Victor demasiou devido o consumo excessivo de drogas. Aí, mais uma vez há uma desconstrução do status quo, pois toda a opulência e possível moralidade da alta sociedade é varrida para debaixo da poeira ante instintos carnais mais fortes.

Após voltarem para casa, Bill e Alice fumam um baseado e engatam um conversa que seria o ponto de virada total da narrativa. Em uma das melhores interpretações de Kidman fazendo uma Alice completamente chapada de maconha, ela revela ao marido que anos atrás ela quase abandonou ele e a filha por um oficial da marinha que vira num hotel onde estavam hospedados. Aquilo desconcerta Bill que sempre vira a esposa – e as mulheres em geral – como uma entidade quase desprovidas de desejos carnais servindo sempre um proposito mais elevado e nobre: fidelidade matrimonial. Ele sai de casa para esfriar a cabeça. Quase sexo com uma prostituta, encontra com um amigo músico que lhe fornece o endereço e uma senha de uma festa secreta e a fantasia. Aí temos a entrada para a toca do coelho.

Se o longa seguisse esta premissa – Bill vingando-se de Alice por uma POSSÍVEL traição – já seria material suficiente para debates acerca do verdadeiro significado da traição e o quanto achamos que conhecemos das pessoas que convivemos. Desejar sexualmente outro alguém é o mesmo que traição carnal? Se não, porque isso nos incomoda quando parte do conjugue? Porém, Kubrick dá uma mudança no destino do longa. Já vimos isso acontecer no brilhante Nascido Para Matar, e apesar da mudança do foco narrativo, a qualidade continua lá em cima e o subtexto do longa continuam os mesmos.

LEIA MAIS: O retrato da Guerra do Vietnã sob os olhos de Stanley Kubrick

Bill vai até o local indicado e ali vemos, talvez, uma das cenas que mais geraram debates no longa: O ritual. Aparentemente emulando o ritual de Hieros Gamos, envolto numa orgia sexual, Kubrick apresenta uma faceta da sociedade que pode ser interpretada apenas figura e metafóricamente  ou como algo real numa performance ocultista. Para os amantes de teorias conspiratórias (Rockefeller, Iluminatti, Reptilianos e afins), foi um prato cheio. Do ponto da destreza cinematográfica, foi perfeito. Alias, todo longa é.

Mostrando um controle total dos movimentos de câmera e enquadramento para realçar ou amenizar um sentimento, Kubrick faz uso de um mundo com cores fortes predominando o amarelo das luzes natalinas na primeira parte do filme que é deixado de lado para uma cinematografia mais escura na segunda metade (a do ritual). Todos os cenários são bem construídos com alguns detalhes que só são percebidos por um olho bem atento – ou em uma segunda seção. A trilha sonora é quase uma entidade intrínseca do longa. Desde o instrumental de Dimitri Shostakovitch da Valsa 2 mostrando um inicio alegre até a   música do ritual, Masked Ball, de Jocelyn Pook engenhosamente tocada ao reverso. 

Toda essa bem estruturada técnica dá a impressão de vermos um sonho bem nítido com uma pitada de surreal. Isso fica mais forte na cena ritualística: enquanto se esbaldam em orgias sexuais, todos estão usando máscaras numa referência que remete ao conceito de Persona do psicanalista Karl Gustav Jung. Segundo Jung, persona é a face social que apresentamos ao mundo. Longe de ser o nosso eu real mas uma personificação daquilo que queremos que os outros vejam de nós. No contexto do filme as máscaras servem para que os indivíduos “donos da sociedade”, os ricos e poderosos, se dispam de suas convenções e sejam quem realmente querem ser. Porém, se tal realidade viesse à tona, não veríamos eles com tanta reverência assim. Aliás, nós também usamos nossas máscaras no dia a dia e a pergunta que fica é: será que isso é de todo ruim?

Desde o bom dia à alguém que não gostamos até a palavra de otimismo a outro que está prestes a sucumbir, estamos usando nossas máscaras. Nem todas para manter o status quo. Muitas servem unicamente para manter numa penumbra nossa personalidade odiosa ou nossas fraquezas. Ainda temos as máscaras que usamos para ser quem realmente queremos. Seria possível a vivência harmoniosa num mundo onde todos  fizessem e fossem o que realmente desejam? Seria a Lei de Thelema o melhor caminho a seguir? E na outra ponta, até que ponto nossas máscaras são máscaras e não a nossa verdadeira face?

Recebendo críticas variadas, muitos acharam o filme muito aquém do talento do autor. Entretanto, este nada ficou sabendo do que acharão de sua obra: este foi o último filme de Kubrick que morreu alguns dias após apresentar a versão final aos donos do estúdio. Isso apimentou o mistério envolvendo o filme: para muitos, Kubrick tentou, através do filme, mostrar a realidade por trás da elite mundial e logo foi silenciado. Notícias circularam na internet sobre festas celebradas pelos Rockefeler onde máscaras semelhantes a do filme eram usadas. Inclusive, o filme foi rodado em uma mansão pertencente a tão misteriosa família. Todos ingredientes que aglutinam para dar forma ao misticismo envolvendo o filme. 

Toda esta mística envolvendo Kubrick e o filme são um retrato das polêmicas envolvendo o autor que mesmo enchendo blogs e sites de material conspiratórios gerando debates sem fim, não conseguem suplantar a verdadeira realidade por trás de todas as máscaras: Kubrick foi um verdadeiro mestre entre os seus.

De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, EUA/Reino Unido, 1999)
Roteiro: Stanley Kubrick, baseado no conto Arthur Schnitzler
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Tom Cruise, Nicole Kidman, Sidney Pollack, Leelee Sobieski, Alan Cumming, Todd Field, Vinessa Shaw, Christiane Kubrick
Duração: 159 min.

[RESENHA] As Terras Devastadas (A Torre Negra #3), de Stephen King

foto por: castelodecartas.com.br

Nota: ★★★★



"Eu não miro com a mão; 
aquele que mira com a mão esqueceu o rosto de seu pai.
Eu miro com o olho.
Eu não atiro com a mão; 
aquele que atira com a mão esqueceu o rosto de seu pai.
Eu atiro com a mente.
Eu não mato com a arma; 
aquele que mata com a arma esqueceu o rosto de seu pai.
Eu mato com o coração."


Tenho que começar esta resenha informando-vos que este é o melhor livro da saga, até aqui. O clima de aventura e de suspense ficam lá em cima. Apesar da melhora do segundo em relação ao primeiro, é neste aqui que se faz jus à todo ode em volta da saga do pistoleiro e seu ka-tet. Mais importante ainda, aqui começamos a ter um vislumbre melhor de como é o mundo de Roland, algumas de suas tradições e os tão bem elaborados ensinamentos que todo pistoleiro deve saber de forma instintiva - como a citação que inicia esta postagem.

As Terras Devastadas ) é dividido em duas partes: “Jake – Medo Num Punhado de Pó” e “Lud – Um Monte de Imagens Quebradas”. Sim, neste livro, Jake (vá então, há outros mundos além deste), nosso querido pequeno personagem morto no início do livro retorna. É aquele conceito de multiverso na prática. Aquela “cena” no livro anterior que Roland salva Jake de ser morto por Jack Mort teve implicações diretas na vida deles, Jake e Roland. E pra sanar a loucura a vida de ambos é preciso que Jake cruze para o mundo do pistoleiro e não é demagogia afirmar que a cena de Jake saindo no nosso mundo para aportar no mundo médio é simplesmente genial. Toda a criatividade de Roland foi a mil na descrição da cena. De quebra, ainda temos um aprofundamento na mitologia da Torre.

Há um terreno baldio onde uma Rosa cresce e para nossa surpresa esta frágil planta é um reflexo no nosso mundo da Torre Negra. Não sabemos ao certo mas fica latente a ideia que protege-la é tão importante quanto proteger a Torre para evitar o colapso do universo. Há uma certa poesia em tudo isso que enche os olhos do leitor.

Nesta primeira parte também vemos Rolando ensinando Eddie e Susannah a serem pistoleiros e como Eddie, por vezes se cansa disto irritando Roland. A dinâmica deles é bem legal. Vale ressaltar que tanto Eddie quando Susannah já não se vem mais prisioneiros de Roland e sim parceiros do pistoleiro em sua obsessão com a Torre. É neste caminho eles se deparam com um dos Guardiões do Feixe de Luz: um Urso Gigante tecnorgânico que enlouqueceu com a "doença" que invadiu o Mundo Médio. Eles precisam passar por ele para seguir o caminho do Feixe de Luz que leva até a Torre. Mas antes acabam chegando a cidade de Lud.

Na segunda parte do livro, além dos quatro integrantes, há o acréscimo de mais um, um trapalhão, uma espécie de guaxinim com cachorro que consegue articular algumas palavras, que logo se afeiçoa a Jake. Juntos chegam até a cidade de Lud, um dos poucos locais habitados. Lá, eles encontram pessoas muitos velhas e temos conhecimento do respeito que Roland sendo um pistoleiro evoca nos moradores. Há uma espécie de reverência mística colocando o pistoleiro como alguém quase divino. Também conhecemos algumas tradições do mundo médio. E somos apresentados ao monotrilho Blane: um monotrem dotado de inteligência artificial que está louco. Promete levar Roland e seu Ka-tet mais próximo da Torre, mas antes eles precisam participar de jogos de adivinhação onde o que vale é a vida deles. Assim termina este terceiro volume.

Numa narrativa mais fluída que seus antecessores, As Terras Devastadas consegue prender mais e ser mais explicativo. Enquanto nos outros livros não muita preocupação com a mitologia envolta da saga, neste temos um cuidado maior do autor em apresentar esses conceitos numa narrativa de tirar o fôlego. 


Boa leitura

As Terras Devastadas (The Waste Lands – 1991)
Páginas: 654
Autor: Stephen King
Editora: Ponto de Leitura
Comprar: 


Obs.: escrevo esta resenha logo após ter visto o trailer do filme sobre a Torre Negra que estreia em agosto. Ansiedade à toda a espera do filme. Confira o trailer abaixo. 




CujoAs Terras Devastadas (A Torre Negra #3) (The Waste  Landes – 1991)
Páginas: 654
Autor: Stephen King
Editora: Ponto de Leitura

[RESENHA] Cujo, de Stephen King

Longe de ser o melhor trabalho de King, “Cujo” consegue mostrar que nossas escolhas, pequenas ou grandes, geram consequências inimagináveis, além de ser uma ótima oportunidade de ver o universo compartilhado do autor.


foto: The Tony Lucas Blog

Nota: ★★★★


Não sendo nenhuma novidade para quem acompanha este espaço, sou fã inveterado de Stephen King. Seus livros, além do terror como algo intrínseco, a maioria deles possui uma visão intensa da mente humana. É como se uma janela se abrisse e tivéssemos acesso aos pensamentos de alguém. Talvez, este seja o principal motivo do sucesso do autor: a capacidade de nos vermos, ao menos um pouco em cada personagem. Sua escrita detalhista faz a narrativa seguir de um ponto de calmaria para um ponto onde o terror, que vinha sendo sussurrado, nos cerque numa atmosfera sufocante e avassaladora. E isso é o que mais chama atenção nesta obra.

Cujo (Cujo – 1981), foi o sétimo livro publicado por Stephen King. Passado na fictícia cidade de Castle Rock, palco de tantas outras obras de King, o livro tem como tema central o cão da raça São Bernardo, Cujo, que após contrair raiva acaba causando um tormento que marcará a cidade. Mas, claro, sendo King o autor, o livro não fixa somente nisso.

De início, acompanhamos Vic e Donna Trenton.  Ele, um publicitário que juntamente com seu sócio, Roger Breakstone, enfrentam um problema referente a um de seus clientes que pode decretar o fim da agência; ela, mediante a infelicidade por ter se mudado de Nova York, engata um romance extraconjugal e acha que está no momento de selar esta parte obscura de sua vida. Junto a tudo isso, temos o filho do casal, Tad que passa a ter pesadelos com um monstro do armário.

Acompanhar a vida do casal é uma tarefa fascinante. Desde Vic com seus problemas no serviço e suspeitando da fidelidade da esposa a Donna que vê na “escapada” uma forma de não enlouquecer, mas que sabe que não pode continuar assim, porém, teme romper com Steve, o "pé de lã". Acompanhar os personagens com esse mundo interior perturbado é incrível. A escrita do autor consegue transmitir todo este drama que te incomoda ao mesmo tempo que faz você torcer por um desfecho positivo na vida do casal. Até este ponto, os “os monstros” da narrativa são as pessoas e seus problemas. E quando Vic precisa viajar pra resolver o problema da firma, ele já tem conhecimento da infidelidade da esposa. E isso será um fator importante no destino dela e, principalmente do filho.

Em muitas obras de King, um acontecimento repercute de forma inesperada resultando num desfecho por vezes triste na vida dos personagens. Aqui, enquanto Vic reflete sobre a conduta da esposa e o que será do casamento, um milhão de coisas passam por sua cabeça que fazem ele exitar na ligação e isso, gera um montante de terror na vida de Donna e Tad. Este terror tem nome: Cujo. O cão São Bernardo que sempre fora dão dócil, teve a infelicidade de contrair raiva e só pensa em matar. 

O drama vivido por Donna e Tad no fim da narrativa são de dar nó no estomago. É pra você fechar o livro e sentir um vazio completo apenas pelo desespero do que acabara de ler. King não poupa o leitor escolhendo o caminho fácil do final feliz. Nada disso. Aqui, o final é de tirar o sono e te fazer odiar e amar o autor na mesma medida pois gostaria de um outro final mas sabe que se assim fosse, o livro não teria o mesmo impacto que teve. King sabe o que faz.

Como de praxe nas obras de King, muitos personagens já são conhecidos de outras obras. Isso traz aquela sensação de familiaridade com a história e ainda enche os olhos dos fãs. Além disso, outro personagem presente na obra foi o alcoolismo. King relata na ótima quase biografia, Sob à Escrita, que enquanto escrevia Cujo, estava na sua mais profunda entrega ao vício e que pouca coisa recorda-se da concepção da obra.

Marcado por um final angustiante, Cujo é um livro que faz o leitor entrar na mente dos personagens e vê que assim como atitudes grandes tem suas implicações, as pequenas também tem e o acumulo delas pode gerar um futuro que ninguém imagina. A não ser que você seja Stephen King.

Boa Leitura

Cujo (Cujo – 1981)
Páginas: 376
Autor: Stephen King
Editora: Suma de Letras
Comprar: Amazon
  

Filmes da Semana #01



Falar sobre filmes é algo muito bom, entretanto, fazer críticas de filmes é uma tarefa trabalhosa. Tanto é que foram poucas as que fiz aqui no “broguinho”. Para não deixar este tema – cinema – de lado e não fazer críticas estúpidas, resolvi criar uma seção chamada Filmes da Semana. O título é pouco original – assim como o nome do blog, rs – e autoexplicativo. Não, não é uma ideia original e muitos outros sites fazem isso. Especificamente, roubei a ideia deste AQUI. Enfim, deixa de lenga – lenga e vamos lá.

The Discovery

A Netflix, cada vez mais se dedica ao mercado dos longas-metragens. Já consolidada no mercado das séries, a plataforma de streaming está tentando se tornar também referência nesta seara. Com alguns resultados questionáveis, vez ou outra algum se sobressai. É o caso de The Discovery.

O que aconteceria com a humanidade se a vida após a morte fosse um fato comprovado? Sim, para muitas pessoas ela já é uma verdade respaldada pelas inúmeras religiões. Mas, e se a ciência conseguisse comprovar que isto é uma verdade cientifica? O filme tem uma versão para isso: uma epidemia de suicídios.

Pessoas que por terem uma vida miserável ou com arrependimentos sufocantes, acabam por ceifar a própria vida na esperança de uma segunda oportunidade onde o futuro se mostra cheio de possibilidades. O filme não aprofunda muito nesse tema – para tristeza dos filósofos – e nem em como a vida após a morte foi comprovada – para tristeza de cientistas. O filme foca mais na vida de Will (Jason Segel), filho do pesquisador autor da descoberta e sua saga por tentar acabar com esta onda de suicídios. E o final é daqueles que fazem jus a uma boa ficção científica.


Barry Lyndon

Stanley Kubrick foi um diretor tão consagrado que até seus filmes que não constam no rol de obras primas do autor, conseguem ser acima da média. Neste, acompanhamos a saga de Redmond Barry. Desde sua adolescência, passando por seu auge na alta sociedade britânica até o ocaso.  Redmond é um personagem que não medirá esforços para se alçar ao topo tomando atitudes sem se preocupar com os escrupulos.

Como de praxe nos filme do diretor, Barry Lyndon é de uma excelência técnica. A fotografia é espetacular. Gravado em luz natural – inclusive as cenas em ambientes escuros foram todas feitas a luz de velas para ser o mais próximo do ambiente da época, a obra nos presenteia com uma fotografia espetacular. Até parece que estamos vendo uma pintura em tela. As reconstruções de ambiente e fugurino são bem feitas. Mas tudo isso não seria o suficiente para manter o espectador a frente da tela por mais de três horas. O roteiro é bem arquitetado, as interpretações estão ok e, apesar de ser quase óbvio o destino de Redmond, a forma como ele chega até lá é que interessa. E Kubrick consegue, mais uma vez um trabalho magistral.

Spartacus

E olha o Kubrick por aqui de novo.

Para aqueles que estão acostumados aos filmes mais cultuados de Kubrick como 2001, Laranja Mecânica e O Iluminado, Spartacus pode soar um tanto quanto estranho. O filme é da década de 70 e como muitas obras passadas, é um filme datado e que muitos podem achar difícil de assistir. Porém, a história do escravo que se rebela contra Roma iniciando um levante, além de belas atuações e um roteiro perfeito traz em sua essência uma forte crítica ao momento em que foi feito.

Adaptado de livro homônimo escrito por Howard Fast, que fora preso por não delatar outras colegas comunistas, acabou sendo roteirizado por Dalton Trumbo, outro que fora perseguido pelo mesmo motivo. Só por isso já nota-se um parelelo da história com a vivida pelo autor e pelo roteirista. Para apimentar ainda mais a história, há aquela icônica cena que serviu de base para muitos outros filmes, que é quando os outros escravos, já derrotados, quando questionados pelos soldados romanos quem é Spartacus, um a um eles se levantando dizendo: “eu sou Spartacus”, numa referência direta aos autores da obra.

Além disso, é um filme dirigido por Kubrick. Precisa de um motivo maior para assistir.


A Vida Imortal de Henrrieta Lacks

Chegamos agora há um filme muito emocionante e que gera um debate ético muito forte. Em 1951, Henrietta Lacks faleceu de câncer. Suas células (conhecidas como Hela) foram coletadas sem a autorização da família. Muitas descobertas científicas como vacinas só foram possíveis graças ao uso dessas células que crescem indefinidamente e continuam vivas até hoje. Porém, enquanto muitos laboratórios e cientistas enriqueceram por conta das aplicações das células Hela, os filhos e marido de Henrietta nunca virão nada desta fortuna.

Na verdade, nunca souberam ao certo o que ocorreu com essas células. De Pouca instrução, não entendiam muito bem as aplicações destas células até que surge a escritora Rebecca Skloot, uma cientista que quer contar a história de Henrietta e quem sabe buscar algum reconhecimento (moral e financeiro) para seus familiares.

O debate bioético levantado pelo filme é muito importante. Num mundo onde as possibilidades cientificas parecem ser cada vez mais infinitas, um olhar mais cauteloso sobre o que deve ou não ser feito é de extrema importância.